Houve um tempo em que as palavras tinham perfume e sentimento! Cheiro de tinta fresca, de caderno usado, de cartas guardadas em gavetas antigas. Havia vida nelas. Eram escritas por mãos que tremiam de emoção, por olhos que aprenderam com as lágrimas e por corações que carregavam cicatrizes transformadas em sabedoria.
Hoje, em poucos segundos, máquinas escrevem livros inteiros. Produzem páginas e mais páginas com uma velocidade impressionante. Organizam ideias, corrigem erros, montam histórias. Fazem quase tudo. Bem próximo, sim. Mas faltam essência, calor humano, emoção verdadeira e paixão. Porque existe algo que nenhuma engrenagem consegue fabricar: a alma.
A alma nasce da experiência. Surge dos tombos, das perdas, dos reencontros, das dúvidas que atravessam madrugadas e das alegrias que iluminam a memória. Ela habita os versos dos poetas, as crônicas dos observadores da vida e os relatos daqueles que transformam vivências em legado.
O problema não está na tecnologia. Ela é ferramenta. O problema está no homem que deixou de sentir. Vivemos uma época em que se lê pouco, se reflete menos ainda e se opina sobre tudo sem compreender quase nada. As palavras perderam profundidade. Os textos se tornaram rasos. A velocidade virou virtude e a superficialidade ganhou status de inteligência.
Enquanto isso, os escritores são esquecidos. Os cronistas desaparecem sem sucessores. Os contadores de histórias envelhecem sem discípulos. Os historiadores registram o passado para um público cada vez menor. E assim, pouco a pouco, cidades inteiras vão perdendo suas memórias.
Uma comunidade sem história é como uma árvore sem raízes. Pode até permanecer de pé por algum tempo, mas não resistirá às primeiras tempestades. Quantos livros contam a trajetória de nossa cidade? Quantos registram seus personagens anônimos, seus heróis discretos, suas lendas e seus causos? Quantas crianças ainda sonham em escrever um poema ou narrar uma história?
Talvez poucas. E isso tem de nos preocupar. O mundo parece ter desaprendido a contemplar. O canto dos pássaros já não interrompe a correria. O pôr do sol virou pano de fundo para fotografias apressadas. As declarações de amor perderam espaço para mensagens automáticas. As serestas silenciaram. A boa música resiste em pequenas trincheiras. A arte, muitas vezes, foi substituída pelo espetáculo instantâneo.
Caminhamos para uma estranha encruzilhada. Já não vivemos entre a razão e a emoção, mas entre algoritmos que calculam tudo e impulsos que sentem quase nada. A hiper-racionalidade dos dados disputa espaço com a reatividade emocional das redes. E, no meio desse conflito, a sensibilidade vai sendo esmagada.
Mas a arte continua sendo necessária. Mais do que fundamental indispensável. Sem ela, o homem perde a capacidade de enxergar além da matéria. Perde o encantamento pelas pequenas coisas. Deixa de compreender que uma flor rompendo o asfalto também é uma forma de resistência. Que um abraço sincero vale mais do que mil curtidas. Que um poema pode salvar uma tarde e que uma lembrança pode iluminar uma vida inteira.
Quem não desenvolve essa sensibilidade não vive plenamente. Apenas existe. Acorda, trabalha, consome, acumula e corre. Apressa-se sem saber para onde. Dispara sem perceber que a vida acontece justamente nos momentos que não podem ser comprados, acelerados ou substituídos.
Viver é diferente. É enxergar poesia no cotidiano. É perceber beleza onde os outros veem apenas rotina. É reconhecer que a existência é uma dádiva e não apenas uma obrigação biológica.
Por isso, os homens e mulheres da palavra são tão importantes. São eles os guardiões da memória, da imaginação e da alma coletiva. São eles que registram aquilo que o tempo tenta apagar. Que transformam sentimentos em páginas e páginas em eternidade.
O dia em que esses guardiões desaparecerem não será apenas a literatura que estará em risco. Será a própria humanidade. Porque quando uma sociedade perde a capacidade de se emocionar, de refletir e de sonhar, ela deixa de enxergar além das aparências. Torna-se prisioneira do imediato, do ego e da ilusão.
E um povo que já não consegue enxergar a beleza das coisas simples talvez tenha perdido a mais valiosa de todas as riquezas: a capacidade de ser verdadeiramente humano. Acadêmicos pedreirenses, onde estão vocês? Está mais do que na hora de voltarem a escrever e deixar um legado importante para as gerações futuras!
Que saudade da época em que a imprensa local pulsava com tanta força: chegamos a ter cinco jornais semanais. Nossas páginas eram verdadeiras praças públicas, onde cronistas apaixonados lapidavam a realidade com suas palavras. Eles não apenas opinavam: criticavam com coragem, elogiavam com justiça e expunham visões de mundo que moldavam o nosso amanhã.
Cada linha escrita era um tijolo na construção e no crescimento do nosso Município. Essa história viva carrega a assinatura e o coração de mentes brilhantes como: Adilson Dorigatti, Milton Walter Setembro, Iraldo Magalhães, José Gilberto Gonçalves Jampaulo, Sargento Renato, José Luis Nieri, Alexandre José da Silva, Rodrigo Padula, Adilson Spagiari, Nataly Jampaulo, Hélio José dos Santos, Silvio Lazarini, Alceu Dalto, Sidenei Defendi, Edelver Ferro, Dair Bassi, Antonio Claudio Rodrigues Marques, Antonio Honório Filho, José Homero Adabo, Henrique Bonaldo, Antonio Aggio, Pedro Paulo Pacce, Herbety Gião, Américo de Souza, Luiz Francisco Novo, entre tantos outros cronistas que imortalizaram nossa identidade no papel.
Imortais: quando desaparecem os cronistas, os poetas, os historiadores e os contadores de histórias, não morrem apenas livros. Suprimem memórias, identidades e referências. Uma cidade sem quem registre sua trajetória acaba condenada ao esquecimento. Um povo sem memória torna-se vulnerável a qualquer narrativa.
Quando, em 2003, surgiu a Academia Pedreirense de Letras, acendeu-se uma esperança quase solene: a de que novas páginas seriam escritas e novos fatos revelados. Além disso, que nomes emergentes seriam eternizados na Terra de João Pedro de Godoy Moreira. Mas o que se vê hoje é um silêncio incômodo, uma Instituição que, empacada, parece ter desaprendido a se reunir, a debater, a reverenciar. Como se a própria memória tivesse sido colocada em pausa. Ainda assim, justiça seja feita: a literatura não se curvou. Neste mesmo mesmo, há uma crônica que reverencia os escritores da Cidade, em material publicado em 11 de abril de 2026, com o título: As histórias contadas revelam a alma de um povo!
Temos a obrigação de ser aqueles poucos “teimosos” que continuam acreditando que palavras podem iluminar consciências. A máquina pode organizar palavras, mas a matéria-prima da grande literatura continuará sendo exclusivamente humana: saudade, amor, perda, esperança, arrependimento, fé, memória e experiência. O dispositivo digital pode descrever uma lágrima. Mas somente quem já chorou sabe o peso dela. E é exatamente aí que mora a diferença entre escrever um texto e tocar uma alma.
Os “Doutos Escritores” são os guardiões da memória da cidade e de uma época. Daqui a muitos anos, quando fatos, números e manchetes tiverem sido esquecidos, serão textos como os elaborados pelos luminares criadores que ajudarão as pessoas a compreender como era a alma do nosso tempo.
P.S. – Post Scriptum – “Os guardiões da alma da cidade” referem-se a pessoas reais, anônimas ou notórias, que dedicam suas vidas a preservar a cultura, a solidariedade e a identidade local. São ativistas, líderes comunitários, artistas e educadores que atuam para manter viva a essência de uma Cidade. Eles promovem a convivência, o acolhimento e a preservação de tradições em meio à rotina exaustiva do dia a dia. Guardiões Urbanos (Sociedade e Cultura); Guardiões Espirituais e Religiosos (Entidades de Luz) e Guardiões em Contextos Filosóficos (Classe de guerreiros ou governantes responsáveis por proteger e manter a harmonia e a justiça na cidade-estado).
*Sidenei Defendi é jornalista profissional, foi âncora do TVP Notícias e depois SRTV Notícias (por quase duas décadas); mestre de cerimônias, “content creator” e Titular da Cadeira nº 5 (Edgard Roquette-Pinto) da Academia Pedreirense de Letras. Este conteúdo é autoral. Material elaborado em 21 de junho de 2026 – 12h20).;




