*POR SIDENEI DEFENDI – Conteúdo Autoral –
Em “Os Embaixadores da Comunicação Pedreirense”, crônica que não se apressa, que surge aos poucos, como quem respeita o tempo da memória, presta tributo aos operários do microfone. Homens que, com ética no peito e paixão na voz, não apenas narraram jogos: contaram a história de um povo. Pela RCP, deram som à alma inquieta da nossa Capital Nacional da Porcelana, moldando, palavra por palavra, a identidade de uma Cidade que aprendeu a ouvir a RÁDIO DA CIDADE!
Hoje, a reverência não é discreta, é de pé, com aplauso demorado. É para os “Craques da Informação Esportiva”. Os homenageados de agora formaram a primeira Equipe Esportiva do rádio pedreirense, pela Rádio Cidade de Pedreira, nos 1.560 KHz. E aqui cabe um ajuste à lógica fria dos números: aqueles 250 watts, modestos no papel, eram gigantes na emoção. Cruzavam colinas, serpenteavam serras, deslizavam por planícies e desafiavam relevos acidentados, levando o eco vibrante das transmissões à Grande Campinas, à Baixa Mogiana, ao Circuito das Águas, à Região Bragantina e, teimosos como todo som que nasce da paixão, ainda atravessavam fronteiras até alcançar o Sul de Minas. Onde chegava a RCP, não aportava apenas um sinal: atingia o pertencimento.
E foi assim que os “Craques da Informação Esportiva” fizeram mais do que audiência, criaram amigos. Construíram laços invisíveis, daqueles que não dependem de fio, mas de verdade.
O segredo? Talvez esteja naquilo que hoje parece raro: tratar o ouvinte como gente, não como número. Narradores, comentaristas, apresentadores e plantonistas transformaram o rádio em companhia íntima, fiel, quase familiar. Falaram a língua do povo, sem enfeite desnecessário, como quem se senta à mesa da cozinha ou puxa uma cadeira na sala. Quebraram a distância, derrubaram o silêncio, preencheram vazios com presença. E não qualquer aparição: uma assiduidade viva, pulsante, carregada de calor humano. Porque, no fim das contas, não era só futebol que se transmitia. Era afeto em ondas médias.
Antes mesmo de a Rádio Cidade de Pedreira — ZYK-725, 1.560 KHz — se aventurar nas transmissões de futebol, já havia no ar um embrião pulsante do que viria a ser história. No início da noite, de segunda a sexta-feira, precisamente das 18h15 às 19h, surgia um programa que não apenas ocupava um espaço: ele preenchia um vazio.

Era o Papo de Bola, (nasceu como Últimas do Esporte), que estreou em 16 de novembro de 1981, logo após a tradicional Oração da Ave Maria, conduzida por Paulo Grillo. Sob o comando de Sidenei Defendi e Adilson José Dorigatti, o programa rapidamente deixou de ser apenas uma proposta para se tornar referência. O esporte pedreirense, até então espalhado em campos de terra e conversas de arquibancada, finalmente ganhava voz — e que voz.
Ao lado deles, Mário Viegas, guardião da memória pública no arquivo da Prefeitura de Pedreira, ajudava a transformar informação em narrativa. Foram os três os pioneiros, não apenas em falar de esporte, mas em dar identidade ao esporte da Cidade no rádio.
E o que era local, começou a se expandir. De Jaguariúna, vinham notícias do esporte amador pelas mãos de Tiãozinho Arruda, do Beira Rio. Aos poucos, o Papo de Bola deixou de ser um programa e virou um mapa sonoro da região. Dirigentes e atletas passaram a enviar informações de onde quer que o sinal da RCP alcançasse. Era o rádio costurando territórios com fios invisíveis.
Na fase inicial, outros nomes também deram corpo à equipe: Reginaldo Rosa, Edelver Ferro, Luís Gustavo Zanini e Donizetti Lima. Cada um com sua opinião, sua leitura, sua forma de enxergar o jogo, porque o futebol, afinal, nunca foi unanimidade.
Durante o dia, Sidenei Defendi percorria os bastidores do esporte local, colhendo informações junto ao Departamento de Esportes da Prefeitura, então dirigido por Luiz Irineu Panini. Outras notícias vinham dos clubes, espalhados pelos campos que desenhavam a geografia esportiva da época: Ingatuba, Monte Nilo, Duas Pontes, A.A. Nadir Figueiredo, o Florindão da Santana, o Estádio Wanderlei José Vicentini e o tradicional Estádio Dr. Sylvio de Aguiar Maya. Porque, no fundo, a mitologia do futebol não existiria sem o rádio. E a Rádio Cidade de Pedreira não ficaria à margem dessa construção.
Em 1982, durante a Copa da Espanha, a emissora já demonstrava sua força ao conquistar a publicidade da cerveja Kaiser, recém-lançada no Brasil pela Coca-Cola. Isso pela massacrante audiência, superando emissoras de grande porte da Região. Era um sinal claro: o rádio pedreirense começava a ser levado a sério.
E foi nesse mesmo ano, numa sexta-feira à noite de fevereiro, que aconteceu a primeira transmissão esportiva local da RCP. Direto do Estádio Dr. Sylvio de Aguiar Maya, em um jogo entre os Veteranos do Santa Sofia e um combinado de atletas profissionais Master, liderados pelo ex-ponta Paraná, do São Paulo, amigo pessoal de Osvaldo Cunha.
O plano inicial era modesto, comentários, informações, um laboratório. Mas o improviso, esse velho parceiro do rádio, entrou em cena. Alcides Gritti apareceu e recebeu a missão de narrar. Aceitou. E transmitiu a partida. Sidenei comentou, Nelson Martins sustentou a retaguarda dos estúdios. O rádio, mais uma vez, provava que nasce forte quando não tem escolha.

O projeto, porém, seguiu adiante. A emissora optou por terceirizar o departamento esportivo, entregando-o a uma equipe mais experiente, liderada por Nadir Roberto. A estreia foi na partida entre Guarani x São Paulo, no Brinco de Ouro. Davi Guilherme na narração, Vagner Ferreira nas reportagens.
Mas nem tudo dura. Problemas de saúde com o narrador interromperam a jornada, e a solução veio em cadeia com a Rádio Bandeirantes de São Paulo, na voz inconfundível de Fiori Gigliotti. Era preciso honrar os patrocinadores. O Guarani venceu por 2 a 0, pelo Campeonato Brasileiro, na noite de 7 de abril de 1982.
O projeto terceirizado não prosperou. Naquele mesmo mês, a direção decidiu investir em uma equipe própria. Clóvis Pereira e Donizete Lima dividiam as transmissões domingueiras. Foi então que, na sede da emissora, na Praça Cel. João Pedro, 29, surgiu um jovem pedindo oportunidade para narrar. Trazia no currículo experiências na Rádio Jornal de Indaiatuba, 1470 AM, emissora inaugurada poucos dias antes da própria Rádio Cidade: Artur Eugênio Mathias.
E assim começaram, de fato, as transmissões. Com mais eficácia e constância. Vieram os Campeonatos da Cidade, o Campeonato Brasileiro, e, após a Copa do Mundo, os jogos regionais das Séries B e C. A equipe esteve presente, ao vivo, no Estádio Chico Vieira, em Itapira, acompanhando Itapirense x União Possense.
Em Pedreira, os primeiros passos foram dados nos estádios Wanderlei José Vicentini, Dr. Sylvio de Aguiar Maya e Nadir Figueiredo. Mas logo, a RCP cruzou fronteiras, marcando presença em Amparo, Monte Alegre do Sul, Jaguariúna, Serra Negra, Morungaba, Santo Antônio de Posse, entre tantos outros.
E foi além. Ocupou cabines históricas: Morumbi, Pacaembu, Palestra Itália, Canindé, Rua Javari, Brinco de Ouro, Majestoso, Barão da Serra Negra. E quando não havia cabine… improvisava-se: como no antigo Roberto Gomes Pedrosa, um caos estrutural, mas um templo de resistência.
Houve jogos marcantes, como: Amparo x Mogi Mirim, em 1984, com Beijoca em campo, ou a partida do Atlético de Amparo, em Aparecida, decidida de última hora. Sem transmissão de uma emissora amparense, a RCP entrou em ação. Linha solicitada às pressas, equipe na estrada: Artur Eugênio, Sidenei Defendi, Adilson Dorigatti, Walter Carbonatto e Paulo Grillo, com sua lendária Kombi a gás.
O resultado? Audiência estrondosa. E um enorme desconforto na concorrência. Antes disso, uma jogada estratégica: parceria com o jornal Folha de Amparo, de Vade Daólio, garantiu destaque na capa. O rádio, mais uma vez, antecipando o jogo fora das quatro linhas.
A equipe pioneira do rádio esportivo pedreirense reuniu nomes que se confundem com a própria história: Walter Antônio Carbonatto, Arthur Eugênio Mathias, Clóvis Pereira, Paulo Grillo, Sidenei Defendi, Adilson José Dorigatti, Donizetti Lima, Edelver Rodney Ferro, Reginaldo Rosa, Luís Gustavo Zanini, com Edson Luís Cremonezi, na técnica e no plantão.
Outros nomes de respeito também passaram e deixaram suas marcas: Luiz Irineu Panini, Baséglio, Djavan, Anibal, J. Mendonça. E como esquecer a final do Paulistão de 1984, no Morumbi?
Primeiro: os equipamentos foram esquecidos na mureta da rádio, na Praça Cel. João Pedro. Depois, ao chegar no Morumbi, a equipe foi deslocada para o meio da torcida, no Morumbi, ao lado de dezenas de outras emissoras. A Rádio Convenção de Itu, perdida em meio ao emaranhado de fios da então Telesp, não conseguiu transmitir e cedeu seus equipamentos à RCP.
Sidenei Defendi e Luís Gustavo Zanini carregaram, cada um, uma pesada maleta de campo, alimentada por bateria de moto. Um esforço físico anormal para sustentar o invisível. Artur Eugênio narrou. Walter Carbonatto e Adilson Dorigatti comentaram.
E no fim, o Santos foi campeão, com gol de Serginho Chulapa, aos 27 minutos do segundo tempo. Porque o jornalismo — especialmente o esportivo — é, antes de tudo, a arte de contar boas histórias.
O folclore desta partida ficou por conta do saudoso Nelsinho Olivari. A bordo de sua Kombi, ele decidiu que no Morumbi teria de ver o jogo do gramado. No peito e na raça, vestiu o uniforme da RCP e aplicou um drible desconcertante no fiscal da FPF: alegou credencial esquecida e uma urgência técnica inquestionável. A Rádio Cidade não conseguiria transmitir sem a presença. Entrou. Durante os 90 minutos, ficou colado no repórter Flávio Prado, da Record, enquanto Silvio Luiz, no auge, comandava o espetáculo. Saliente-se que naquela época todas as emissoras de TV que desejassem e pagassem, podiam transmitir. Mas vivia-se também a era de ouro do rádio.
E essa arte nunca foi problema para esta equipe. Estádio Roberto Gomes Pedrosa, em Piracicaba. Um daqueles dias que o tempo registra, mas o autor do texto não se recorda perfeitamente: poderia ter sido 1984, 1985…quem sabe 1989? Datas falham, mas sensações não. Era jogo da ADC Santana, e o resto… o resquício ficou gravado de outro jeito.
A linha já havia sido instalada — ou ao menos era o que se acreditava — no “novo” (???), campo do XV, o Estádio Municipal Barão da Serra Negra, batizado oficialmente pela lei 1.365, de novembro de 1965, casa do tradicional Esporte Clube XV de Novembro. Só que o destino, resolveu brincar com a lógica: a TELESP, segura de si, apontava para um lugar; a realidade, teimosa, acontecia em outro.
O pedido havia sido feito para o antigo campo do XV, lá no coração da cidade, entre as ruas Governador Pedro de Toledo e Regente Feijó, onde hoje o progresso ergueu paredes e prateleiras, apagando o eco dos gritos que um dia habitaram aquele chão, dando lugar a frenéticas compras em um atacado.
Enquanto isso, o Robertão — a velha “Panela de Pressão” — ainda respirava. Já não fervia como antes, mas guardava calor suficiente para acolher treinos, jogos de divisões inferiores e histórias que insistiam em não morrer. O apelido não era por acaso: ali, quando cheio, o estádio pulsava como um organismo vivo, comprimindo emoção até fazê-la explodir em grito.
Naquele dia, porém, não havia multidão. Apenas atletas, dirigentes… e teimosia. Entre os que carregavam o rádio nas costas e a responsabilidade na voz estavam Artur Eugênio, Adilson José Dorigatti, Walter Carbonato — talvez Baséglio – Sidenei Defendi. O narrador, sem cabine, ficou à beira do gramado. Sem luxo, sem estrutura, mas com algo que nunca faltou: vontade e determinação.
E curiosamente, foi justamente a ausência de público que evitou maiores problemas. A única emissora presente era a RCP. Silêncio nas arquibancadas, tensão nos bastidores.
Em Pedreira, a luta era outra. O saudoso Edson Luís Cremonezi, o Magrão, comandava a equipe técnica como um general em campo de batalha invisível. Do outro lado, Dicão Niero, plantonista daquele domingo, travava uma guerra de fios, postes e paciência com a TELESP em Piracicaba. Era corrida contra o tempo e contra a burocracia.
E no apagar das luzes, como costuma acontecer com quem insiste até o último segundo a linha surgiu. Improvisada, tardia, mas suficiente. O Roberto Gomes Pedrosa, já castigado — arquibancadas em fase de demolição, cabines inexistentes, estruturas rendidas ao tempo — ainda sustentava o essencial: um gramado razoável para uma competição amadora. Mas o espírito… absolutamente profissional.
E não foi só ali que a Rádio Cidade – gente como você, como designava um dos slogans – mostrou sua fibra. Em Santa Cruz das Palmeiras, com o E.C. Santa Sofia ou com o União Pedreirense – a memória embaralha nomes, mas preserva emoções — lá estava novamente a equipe, sem cabine, protegida apenas por uma rede confeccionada de barbante, como quem transmite entre o risco e a coragem.
E foi nesse cenário que Djalma, o goleiro, resolveu escrever seu próprio capítulo: defesas improváveis, quase desafiando a lógica, garantindo a classificação nos pênaltis. Enquanto isso, um temor rondava o campo, a possibilidade de invasão, a ausência de policiamento. Era futebol em estado bruto.
Mas se alguém pensa que parou por aí, engana-se. Houve transmissão feita de cima de uma carroça — sim, um veículo de tração animal — impregnada pelo cheiro forte de excrementos de vaca, numa tarde ensolarada de sábado, na divisa entre Campinas e Jaguariúna. E ainda assim, ninguém arredou pé.
Foi nesse mesmo jogo que Maércio Ramos, então jogador, marcou o gol da vitória. O mesmo atleta, que mais tarde ficaria conhecido como “Morcegão”, e trocaria o gramado pelo microfone, construindo sua história como cronista esportivo em grandes prefixos. O destino gosta dessas ironias elegantes. E lá estavam eles de novo: Arthur Eugênio, Sidenei Defendi, Adilson Dorigatti, Edelver Rodney Ferro. Sem glamour, estrutura e garantias, mas persistentes.
Mas com algo que hoje parece raro: compromisso inegociável. Porque no fim das contas, mais do que transmitir jogos, eles relataram resistência. O ouvinte era o privilegiado. E isso…nenhuma interferência derruba.
O Rádio tem história e não pode ser ignorado. Em 1934, no circuito da Gávea, Nicolau Tuma inovou ao espalhar “informantes” pelo percurso de uma corrida automobilística. Eles ligavam, descreviam e assim nasciam os primeiros repórteres do rádio esportivo.
Depois vieram os locutores de campo, posicionados atrás dos gols. Murilo Antunes foi um dos pioneiros. Em 1948, a Rádio Panamericana institucionalizou o Plantão Esportivo, com Narciso Vernizzi.
O rádio não apenas transmitiu o esporte. Ele moldou uma nação Foi através dele que o futebol deixou de ser jogo e virou identidade. O Brasil passou a se reconhecer como Brasil. A emoção ganhou frequência e atravessou fronteiras invisíveis.
E houve um tempo — talvez o mais bonito de todos — em que o rádio viveu o seu auge. As transmissões tinham conteúdo. Os jogos, qualidade. E a torcida… alma. Porque no fundo, o rádio nunca foi só som. Foi — e continua sendo — sentimento em estado puro.
*Sidenei Defendi é jornalista profissional, mestre de cerimônias, “content creator” e Titular da Cadeira nº 5 (Edgard Roquette-Pinto) da Academia Pedreirense de Letras. Este conteúdo é autoral – (Texto criado em 2020, durante a pandemia, e que integra o livro “Delírios & Devaneios”, ainda não publicado).



