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O final de semana dos jovens pedreirenses vivido intensamente junto às águas e os mistérios do Rio Jaguari!

*Por Sidenei Defendi – Conteúdo Autoral –

Driblar as adversidades com criatividade e transformar a falta de recursos em pura liberdade. Esta é a crônica de uma época em que o final de semana dos jovens de Pedreira era vivido intensamente junto às águas e os mistérios do Rio Jaguari. É um pedaço da história de Pedreira que dificilmente será encontrado em documentos oficiais. São memórias e testemunho do cotidiano, dos costumes, da forma de viver de uma geração.

“No final da década de 1960 e início da de 1970, as ilhas existentes ao longo do Rio Jaguari — desde as antigas instalações da fábrica Nadir Figueiredo até o Caracolonde hoje está instalada a unidade II da Santana — foram conquistadas por grupos de jovens destemidos em busca da verdadeira liberdadeApenas duas delas, neste trecho, ficaram fora da rota dos aventureirosa situada próxima à antiga entrada para o Morro do Cristo e a da Ponte Pênsil da São João.”

Cada grupo adotava uma ilha como seu território. A maioria construía um rancho coberto de sapé ou de folhas de coqueiro, onde permanecia, às vezes, por dois ou três dias seguidossem abandonar aquele pequeno mundo. Dormia-se em redes presas às árvores ou em camas improvisadas com folhas. Quando havia sorte, uma velha cama dobrável de armar era levada para a choupanaEra um programa de fim de semana simples, repetido como um ritual de passagem: desaparecer por alguns dias e mergulhar em um universo onde o relógio era o sol e o teto, as estrelas.

É claro que havia uma preparação prévia, e tudo cabia em uma pequena sacola de pano ou de plástico, daquelas que nossos pais levavam para fazer compras na venda da esquinaCarregava-se apenas o essencial: café em pó, leite em pó, um pacote de arroz, temperos da cozinha de casa e alguns utensílios indispensáveis, como colher, garfo e facaVez ou outra. surgia um radinho de pilha para ouvir musicas ou transmissão de futebol.

O restante ficava por conta da coragem dos jovens e da generosidade do Rio JaguariEra dele que vinha o ingrediente principal das refeições: lambaris, cascudos, bagres, douradinhos e tantos outros peixes. A água para cozinhar o arroz ou preparar o café era retirada do próprio rio, cujas águas eram limpas e abundantes. Alguém pode perguntar: “Mas vocês usavam água do rio?” Sim. Ela era cristalina e, quando necessário, sempre havia uma nascente nas proximidades.

Para chegar às ilhas, improvisavam-se pinguelas de madeira ou utilizavam-se canoas, conforme o trecho do rioHoje, talvez muitos jovens considerem esse programa impensável. Afinal, que graça haveria em passar dias em uma ilha sem conforto, sem energia elétrica e sem qualquer tecnologia?

Mas era justamente aí que residia a magiaNão havia conforto, nem eletricidade, porém sobravam criatividade, companheirismo e disposição para transformar dificuldades em diversãoNinguém ia para as ilhas fugir dos problemas ou se isolar da sociedadeIa-se para viver intensamente. Pescar, preparar a própria comida, jogar baralho, dominó, damas, palitinhos e, principalmente, compartilhar o tempo.

Viver naquelas ilhas era uma verdadeira escola de criatividade. A ausência de energia elétrica jamais significava escuridão. As noites eram iluminadas pelo clarão dourado da fogueira e pelo luar que desenhava reflexos prateados sobre as águas do Jaguari. Todos levavam faroletes, mas o fogo era o verdadeiro centro da vidaSempre aceso em um fogão improvisado, cuidadosamente protegido para que o vento não espalhasse as chamas.

Ali, ninguém lamentava a falta de conforto; celebrava-se a inteligência. Se o garfo ou a colher fossem esquecidos em casa, um pedaço de bambu logo se transformava em espeto ou talher. Se não existisse grelha, bastavam alguns galhos verdes sobre a brasa para preparar o almoço ou o jantar.

A rotina era um aprendizado permanente. Havia o momento de lançar a linha, o silêncio respeitoso da espera e a explosão de alegria quando o peixe finalmente mordia a isca. Depois, à beira da água, mãos ainda jovens, mas já habilidosas, limpavam a pesca do dia com a naturalidade de quem aprendia diretamente com a natureza.

O Rio Jaguari não era apenas uma paisagem. Era um mestre silenciosoEra o provedor da “mistura” que alimentava o corpo e fortalecia a alma daqueles jovensO Rio Jaguari exigia também extremo respeito e cuidado devido aos seus perigos fatais, e que a única forma de sobreviver a ele é pela prevenção, nunca pelo confronto direto. A força avassaladora da água obrigava a prudência humana diante de riscos inevitáveis.

O aroma do arroz cozido no fogo de chão, misturado ao cheiro do peixe recém-frito, criava um banquete que restaurante algum conseguiria reproduzir. E, nas manhãs frias, o café passado na hora, saboreado com os pés sobre a terra ainda úmida pelo sereno, tinha gosto de liberdade.

Os jovens de Pedreira daquele tempo — entre o final da década de 1960 e o início da de 1970 — entre os quais tive a felicidade de estar, provaram que a falta de recursos jamais foi um obstáculo. Pelo contrário: era o mais alto combustível para a imaginação.

Transformávamos bambus em espetos, varas de pesca, copos e até suportes para coar o café. Aprendíamos a conservar os peixes utilizando técnicas simples de salga ou aproveitando a água fresca do rioAssávamos peixes diretamente na brasa ou envolvidos em folhas de bananeira. Cada fim de semana ensinava uma nova lição de sobrevivência, cooperação e respeito à natureza.

À noite, bastavam o fogo da fogueira, o luar e o conhecimento das estrelas para que longas conversas preenchessem o silêncioNão existiam telas, notificações ou distrações. Existiam amigos, histórias, risadas, o murmurejo das águas do Jaguari batendo nas pedras e um céu infinito sobre nossas cabeças.

Hoje compreendo que aquelas ilhas eram muito mais do que simples pedaços de terra cercados pelas águas do JaguariEram territórios onde a amizade criava raízes, onde a criatividade florescia diante da escassez e onde a liberdade deixava de ser uma palavra para tornar-se uma experiência.

Aquela geração soube vencer as dificuldades com um sorriso no rosto. Transformou ilhas isoladas em verdadeiros reinos da amizade e eternizou sua juventude nas águas, nas margens e na memória inesquecível do Rio Jaguari.

E há um detalhe que o tempo jamais apagará. Ninguém ia às ilhas para destruí-las. Muito pelo contrário. Décadas antes de a preservação ambiental ganhar espaço nas escolas, nas leis e nos debates da sociedade, aqueles jovens já praticavam, naturalmenteo respeito à naturezaAs fogueiras eram feitas com cuidado e totalmente apagadas antes da partida; o lixo voltava nas sacolas; as árvores permaneciam de pé; as nascentes eram preservadas; e o rio era tratado como um velho amigo, jamais como um depósito ou um recurso inesgotável.

Sem discursos, sem campanhas e sem placas de conscientização, eles compreenderam que a natureza retribui apenas a quem sabe respeitá-la. Talvez, sem perceber, tenham sido os primeiros guardiões daquelas ilhas, deixando como maior herança não apenas as lembranças de uma juventude inesquecível, mas também o exemplo silencioso de que liberdade e responsabilidade sempre caminham lado a lado.

O tempo passou. As ilhas mudaram, o rio também mudou, e nós envelhecemosMas há lembranças que jamais avelhentam. Permanecem vivas, correndo silenciosamente como as águas do Jaguari, lembrando-nos de que houve um tempo em que a riqueza não era medida pelo que se possuíamas pela liberdade que se tinha para viver.

*Sidenei Defendi é jornalista profissional, mestre de cerimônias, âncora do TVP Notícias e depois SRTV Notícias (por quase duas décadas), “content creator” e Titular da Cadeira nº 5 (Edgard Roquette-Pinto) da Academia Pedreirense de Letras. Este conteúdo é autoral e foi elaborado em 15 de julho de 2026 – 4h35.

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Esta notícia foi elaborada com base em dados oficiais disponibilizados por plataformas de transparência, que têm como objetivo ampliar o acesso à informação pública e promover a divulgação responsável, clara e profissional dos fatos.

Sidney Defendi

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