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O dia em que Pedreira se estarreceu pelo silêncio: o fim da Rádio Cidade, a “Voz do Povo”

*POR SIDENEI DEFENDI – Conteúdo Autoral –

Há 26 anos: no dia 2 de maio de 2000, por volta das 15 horas, a rotina de Pedreira foi interrompida sem aviso e, para muitos, sem explicação. Nos estúdios da Rádio Cidade de Pedreira, instalada na Rua XV de Novembro, nº 52, o apresentador Compadre Juca se preparava para iniciar mais uma edição de seu tradicional programa sertanejo. Do outro lado, rádios ligados, ouvintes atentos, a Cidade seguindo seu compasso habitual. Até que, de repente, o som desapareceu.

Sem vinheta. Sem despedida. Sem uma última palavra. A transmissão da então chamada Regional AM (nome fantasia que se usava neste período, quando tentaram fazer FM no AM e com o slogan RÁDIO DE VERDADE!), operando em 1.560 KHz, foi cortada abruptamente. E nunca mais voltou.

O que naquele instante pareceu uma falha técnica revelou-se definitivo. Segundo Cesar Fabiano, responsável pela gestão da emissora à época, a interrupção ocorreu por determinação do Ministério das Comunicações. O motivo: o novo proprietário não havia solicitado a renovação da concessão, que estava prestes a vencer. Uma exigência legal ignorada e suficiente para silenciar uma história de quase duas décadas.

Mas o que se encerrou naquele dia foi muito mais do que uma frequência no dial. Pedreira, conhecida como a “Flor de Porcelana”, perdia sua própria voz. Fundada em 28 de outubro de 1981, a Rádio Cidade não era apenas um veículo de comunicação. Era presença constante nos lares, companhia de todas as horas, trilha sonora de todos os momentos. Era o espaço onde a Cidade se reconhecia, com suas notícias, seus sotaques, suas festas, seus conflitos e suas conquistas.
O rádio local tem essa natureza única: ele não fala para as pessoas, ele dialoga com elas. Ele traduz a vida comum em narrativa coletiva. E, quando se cala, deixa um vazio que nenhuma rede nacional consegue preencher.

A trajetória da emissora começou na Praça Cel. João Pedro, nº 29, onde permaneceu até 1984. Depois, mudou-se para a Rua XV de Novembro, 52, ocupando o térreo, sendo que neste espaço ficava o estúdio de gravação até 1986 e depois, por algum tempo, serviu de sede da Gazeta do Povo; e no pavimento superior, área em que se concentravam os estúdios, técnica e administração, e onde viveria anos marcantes. Hoje, o prédio abriga uma oficina, no térreo e apartamentos, no piso superior, sinais de que o tempo seguiu seu curso, ainda que a memória insista em permanecer.

Sob a liderança de seus fundadores — Hygino Amadeu Bellix, Walter Antonio Carbonatto e Álvaro Edmir Carbonatto — a Rádio Cidade rapidamente conquistou espaço e audiência. Com uma programação ousada e dinâmica, ultrapassou os limites de Pedreira e alcançou cidades vizinhas, tornando-se referência regional.

Seu elenco de locutores era formado por nomes que conquistaram os ouvintes, como: Faneli, José Eduardo, Compadre Juca, Valter Carbonato, Sidenei Defendi, Glauco Emerson, João Paulo Bellix, Edson Cremonesi, o “Bobrinha”, Luís Carlos de Moraes, Luís Francisco Novo, Antonio Honório Filho, Nelson Martins, Cristina Bruno, Compadre Cenatti, Valdecy Rodrigues, Marry, Sargento Renato, Sérgio Caparroz, Laércio Olivari, Samuel Carbonatto, Anibal, Carlão Zanini, Cesar Fabiano, Celi Santos, Maurício Camargo, entre outros profissionais de qualidade, que ajudaram a construir uma identidade única, feita de carisma, proximidade e autenticidade.

O reconhecimento veio rápido. Em menos de oito meses no ar, a emissora foi escolhida pela Kaiser para liderar a divulgação regional de seu lançamento durante a Copa do Mundo de 1982, superando tradicionais rádios da Região e de Campinas, o grande mercado publicitário da época. Um feito que evidenciava sua força e alcance.
A Rádio Cidade também inovou ao investir em equipe própria para a cobertura esportiva. Em vez de retransmitir conteúdos das grandes emissoras da Capital, levou seus profissionais aos estádios, acompanhando de perto o Campeonato Paulista, o Brasileirão e, sem deixar de lado, os Campeonatos locais e regionais. Era o olhar da própria comunidade narrando seus heróis e suas histórias.

Com o passar dos anos, a emissora mudou de mãos. Foi arrendada por José Carlos Lena, depois por Jair Roberto Cassiani, até ser adquirida definitivamente por Fábio Monteiro de Barros, que tentou reposicioná-la sob o nome Regional AM. Havia planos de expansão para o mercado de Campinas, mas o projeto não se concretizou. E então veio o silêncio. Uma mudez burocrática é verdade. Mas também uma ausência de som simbólica.

Trinta ou quarenta dias antes do golpe seco desse fato, desses que não pedem licença nem dão aviso, Cesar Fabiano, o homem que fazia de tudo um pouco e um pouco de tudo na emissora, conseguiu o improvável: convenceu o Monsenhor Nilo Romano Corsi a ceder o pavimento superior do prédio na Rua Siqueira Campos, 111. Ali, onde estava instalada a Secretaria de Educação e Cultura — à época uma só engrenagem — e o PAT. Começava a ser desenhada, quase em silêncio, o novo espaço para abrigar a emissora.

E quando o fim, abrupto e definitivo, bateu à porta, sem cerimônia, como costumam chegar os desfechos que ninguém quer, os estúdios principal e de gravação ainda estavam sendo erguidos, peça por peça, como quem constrói futuro com as próprias mãos. Mas o destino, irônico e impiedoso, não permitiu estreia nem eco: o novo espaço jamais ouviu uma transmissão. A emissora, ainda transmitia dos estúdios da Rua XV de Novembro, 52, como se o tempo tivesse decidido, por capricho ou descaso, congelar o próximo capítulo, antes mesmo da primeira palavra ser dita.
Porque o rádio, enquanto meio, resiste ao tempo. Ele se reinventa, atravessa gerações, adapta-se às tecnologias. O que não resiste com a mesma facilidade são as vozes locais aquelas que conhecem os nomes, as ruas, os hábitos, os detalhes que transformam uma Cidade em comunidade.

O fim da Rádio Cidade de Pedreira não foi apenas o encerramento de uma concessão. Foi a interrupção de um diálogo coletivo. E talvez seja por isso que, mesmo após tantos anos, ainda haja quem, ao girar o dial, espere, quase instintivamente, que aquela frequência volte a respirar. Porque algumas vozes, mesmo em silêncio, continuam sendo ouvidas.

*Sidenei Defendi é jornalista profissional, mestre de cerimônias, “content creator” e Titular da Cadeira nº 5 (Edgard Roquette-Pinto) da Academia Pedreirense de Letras. Este conteúdo é autoral – Material elaborado em 5 de abril de 2026, às 10h49.

Fachada da primeira sede da Rádio Cidade de Pedreira. Foto do dia 28 de outubro de 1981, dia da inauguração, do acervo particular de Sidenei Defendi]

Segunda e última sede da RCP, na Rua XV de Novembro, 52 – Foto: Google Maps

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Esta notícia foi elaborada com base em dados oficiais disponibilizados por plataformas de transparência, que têm como objetivo ampliar o acesso à informação pública e promover a divulgação responsável, clara e profissional dos fatos.

Sidney Defendi

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