*Por: Sidenei Defendi – Conteúdo Autoral –
Antes de ligar a máquina e caminhar pelos registros das antigas barbearias de Pedreira, preciso fazer um trato com o leitor. Nosso ponto de encontro no tempo está cravado entre 1960 e parte dos anos de 1970. O que você vai ler por aqui não é um censo oficial, mas sim um passeio pelas lembranças que minha mente conseguiu resgatar. Se você notar que esqueci de alguma barbearia clássica desse período, peço que não guarde rancor: foi falha da memória e não do coração!
Amigos barbeiros (familiares principalmente) peço perdão se houver ausências — e certamente haverá — que estes mestres da navalha e tesouras esquecidos recebam minhas sinceras desculpas; não há aqui qualquer ato de exclusão ou discriminação deliberada, apenas as limitações naturais de quem escreve lembrando. Aos que herdaram o ofício e abriram suas portas após o período especificado, fica o meu respeito pelo que construíram, enquanto me volto, neste momento, estritamente para o passado. O desejo é o de reviver o cheiro de loção pós-barba e o som das tesouras de um tempo que já se foi e ficou cravado na história cultural de Pedreira,
Há décadas passadas, diria mesmo do século anterior, ir à barbearia significava muito mais do que cortar o cabelo ou aparar a barba. Era um ritual. Um compromisso social. Um daqueles pequenos acontecimentos semanais que ajudavam a costurar a vida da cidade.
Nas décadas de 1960 e 1970, as barbearias de Pedreira eram verdadeiros clubes masculinos. Bastava empurrar a porta para encontrar as pesadas cadeiras de couro reclináveis, os grandes espelhos emoldurados em madeira, os pisos em cerâmica ou em xadrez, as paredes revestidas de azulejos até meia altura e as bancadas de mármore ou madeira onde repousavam navalhas, tesouras, pentes de âmbar e frascos de loções de aroma marcante.
Nada de luxo. Apenas simplicidade, tradição e identidade. Naqueles anos, os espaços de beleza eram rigorosamente separados. Barbearias pertenciam aos homens; salões de beleza, às mulheres. Enquanto elas passavam horas sob os secadores de capacete moldando penteados altos, fixados com abundante laquê, eles aguardavam pacientemente sua vez de ocupar a cadeira do barbeiro.
Ali, o tempo parecia correr mais devagar. Enquanto a navalha era cuidadosamene assentada na tradicional cinta de couro — esticada sobre um suporte de madeira e muitas vezes complementada pelas pedras de amolar — conversava-se sobre futebol, política, colheitas, negócios, eleições e acontecimentos da cidade. Lia-se jornal, folheavam-se revistas e muitos fumavam um cigarro enquanto se esperava o chamado.
Era um ambiente onde amizades eram construídas e notícias circulavam antes mesmo de chegarem às páginas dos jornais. Os cortes refletiam perfeitamente cada época. No início dos anos de 1960 predominavam a elegância e a disciplina. O topete clássico, inspirado nos astros do cinema e nos primeiros ídolos da Jovem Guarda, dividia espaço com o tradicional corte social de risca lateral bem marcada, cabelos curtos, alinhados e impecavelmente modelados com “Brilhantina” ou “Glostora”.
Já os anos 1970 trouxeram outra filosofia. A influência dos Beatles, do rock, do movimento hippie e da contracultura fez os cabelos crescerem. Vieram as franjas, as costeletas compridas, os fios cobrindo as orelhas e a nuca, as barbas mais cheias e um visual muito mais livre, substituindo o rigor estético da década anterior.
O comportamento social também mudou. A rebeldia da juventude colocou em xeque antigos costumes, e as tradicionais barbearias começaram, lentamente, a perder espaço para os novos salões unissex, que surgiam oferecendo serviços mais modernos e acompanhando as transformações da moda.
Escrever sobre esse passado é caminhar pelo delicado terreno da memória. Em Pedreira existiram diversas barbearias que marcaram época. Lembro-me da Barbearia de Vitório Pazini, instalada no final da Rua José Gonçalves, esquina com a Travessa Ângelo Ricci que, pela extensão, sempre considerei merecedora do título de rua, e não de travessa. Apenas um quarteirão dali, na Vila São José, funcionava o Salão de Antônio Crispin, na esquina das ruas Dr. Moacir do Amaral e José Gonçalves.
Na Rua XV de Novembro, Sudário Marchezini recebia seus clientes na parte frontal da própria residência. O imóvel foi demolido e hoje, em seu lugar, funciona uma famosa Hamburgueria. Também nesta importante via trabalhava Alfredinho Daldosso, em seu Salão localizado no número 455. Outro estabelecimento bastante marcante era o de Lavínio Camilotti, apontado pelos mais antigos como o barbeiro preferido da clientela de maior poder aquisitivo da cidade. Jacyr Camilotti também dava expediente neste local. Mais tarde abriria sua própria Barbearia, na Vila São José.
Outro profissional que marcou época em Pedreira foi Guido Seraphim, cujo endereço — na Rua XV de Novembro, 101 — abriga hoje o Escritório Santa Clara. Guido pertenceu a um tempo em que os barbeiros eram verdadeiros artesãos do visual. Naquela época, o ofício dependia exclusivamente do domínio quase cirúrgico das navalhas e tesouras. Cada corte de cabelo e cada barbear demandavam anos de prática silenciosa. Era preciso controlar perfeitamente o ângulo, o peso e a pressão das lâminas sobre a pele, transformando um ato cotidiano em uma dança precisa e sem acidentes.
Para além das cadeiras de couro e dos espelhos, Guido guardava outra paixão. Até a proibição oficial em 1961, pelo Decreto nº 50.620 assinado pelo presidente Jânio Quadros, ele foi criador de galos de combate.
O tempo passou, mas a história dessas aves permanece viva. Até hoje, a criação e a posse de raças combatentes — como Mura, Shamo, Asil e Sumatra — continuam permitidas por lei, desde que o propósito seja estritamente a preservação genética dessas linhagens imponentes. Afinal, perpetuar a existência dessas aves não é ilegal; o crime ambiental reside, estritamente, no ato de submetê-las a combates ou a qualquer tipo de maus-tratos. Preservar o sangue dessas raças é manter viva uma herança biológica; o desrespeito à vida é que ficou no passado.
Minha memória ainda percorre a Rua Antônio Pedro. Lá funcionava a Barbearia do Machadinho (Aristides Machado de Oliveira). Mais adiante estava Ettore Uttembergue, quase na esquina com a Rua Santana. Já no final dos anos de 1970 ou princípio dos anos de 1980, Cuca Uttemberghe abriu seu estabelecimento ao lado da Oficina do Grandão, também na Rua Antônio Pedro. E na Rua Alice Moreira, ao lado do então Armazém do Zinho, as tesouras e as navalhas eram manuseadas pelo Celotto.
Não posso deixar de recordar outros três profissionais muito conhecidos: Sontachi e Manzolli, que mantinham o Salão na Rua Luís Pedro de Godoy Moreira e, Hermínio Begalli, pai do ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal Paulo Antonio Begalli, cuja Barbearia ficava no final da mesma rua, hoje acesso ao Bairro do Limoeiro.
Minha própria história passa por esses lugares. Quando criança e adolescente, frequentei as duas barbearias da Vila São José daquela época, afinal, morava na Rua José Gonçalves. Depois que ambas encerraram suas atividades, passei a cortar os cabelos com Cuca Uttemberghe. Mais tarde, meu barbeiro foi o Jules, quando seu salão ainda funcionava no número 93 da Rua XV de Novembro.
Com a chegada dos salões unissex, impulsionados pelas mudanças culturais trazidas pelos movimentos de igualdade e pela revolução comportamental dos anos 1970, homens, mulheres e crianças passaram a compartilhar o mesmo espaço. A praticidade conquistou as famílias. O acontecimento social se ampliou.
Os homens também passaram a procurar lavagem com xampus especiais, hidratações, colorações e tratamentos antes inexistentes nas antigas barbearias. Foi o início da grande crise para as barbearias convencionais.
Muitos barbeiros haviam sido formados apenas para executar cortes curtos, militares e tradicionais. Alguns recusavam-se a trabalhar com cabelos longos; outros simplesmente não dominavam as novas técnicas exigidas pela juventude. Ao mesmo tempo, a popularização dos barbeadores elétricos e das lâminas descartáveis reduziu drasticamente a procura pela costumeira barba feita com navalha.
Enquanto os novos salões ampliavam seus serviços, muitas barbearias permaneceram oferecendo apenas cabelo e barba. A consequência foi inevitável. Diversos estabelecimentos fecharam as portas; outros adaptaram-se, transformando-se em salões unissex ou concentrando seus serviços em clientes mais idosos.
Parecia o fim de uma tradição. Mas a história reservava uma surpreendente reviravolta. A partir da década de 2010, ocorreu um dos mais notáveis reposicionamentos de mercado dos últimos tempos. As barbearias ressurgiram.
Voltaram inspiradas justamente naquele ambiente clássico das antigas casas de barbeiro, porém, com uma nova linguagem. Madeira de demolição, couro, iluminação aconchegante, decoração industrial, cervejas artesanais, mesas de sinuca, videogames, estúdios de tatuagem e lojas especializadas transformaram esses espaços em ambientes de convivência.
A barba cheia voltou à moda. Óleos, balms (hidratantes), pomadas modeladoras, xampus específicos e novas técnicas de desenho fizeram do barbeiro um profissional novamente valorizado.
Até mesmo o ato de fazer a barba tornou-se uma experiência. Toalhas quentes, massagens faciais e navalhetes com lâminas descartáveis devolveram charme a um procedimento quase esquecido. Curiosamente, o ciclo se completou.
Assim como acontecia nas décadas de 1960 e 1970, as barbearias voltaram a ser muito mais do que locais para cortar cabelos. Recuperaram a alma de um tempo em que conversar era tão importante quanto aparar a barba; em que o cheiro da brilhantina se misturava ao do talco e da loção pós-barba (Aqua Velva); em que cada cadeira ocupada guardava histórias, amizades e lembranças.
Afinal, algumas tradições jamais desaparecem. Apenas esperam o momento certo para renascer.
Na tessitura do tempo, os barbeiros de ontem deixaram fios de memória que ainda brilham como navalhas ao sol; eram mestres da conversa, guardiões de segredos e arquitetos de estilos que moldavam não apenas cabelos, mas também histórias.
Hoje, multiplicam-se as barbearias em vitrines modernas, com agendas digitais e esperas adornadas de atrativos, mas o espírito permanece: cada corte é um rito, cada barba aparada é um gesto de identidade. Aos barbeiros de agora, que serão personagens de crônicas futuras, deixo um aviso: vocês também estão escrevendo histórias, e um dia, suas tesouras e cadeiras serão lembradas como símbolos de uma era que reinventou o ato de cuidar da aparência e da alma.
*Sidenei Defendi é jornalista profissional, mestre de cerimônias, âncora do TVP Notícias e depois SRTV Notícias (por quase duas décadas), “content creator” e Titular da Cadeira nº 5 (Edgard Roquette-Pinto) da Academia Pedreirense de Letras. Este conteúdo é autoral. Material elaborado em 20 de julho de 2026, segunda-feira e concluído aos 29 minutos do dia 21 de julho).





