Por: Sidenei Defendi – Conteúdo Autoral –
Há instituições que não nascem aleatoriamente ou por força das circunstâncias burocráticas. Elas brotam de um movimento silencioso e poderoso da sociedade, quando homens e mulheres decidem que a realidade não pode permanecer como está. É assim que florescem as organizações do Terceiro Setor: da mobilização de pessoas comuns que se recusam a aceitar que a vulnerabilidade seja o seu destino e que a ausência do Estado represente o fim da esperança.
Embora o poder público desempenhe papel essencial na promoção da assistência social, da saúde e da educação, nem sempre consegue alcançar todas as demandas que uma comunidade apresenta. É nesse espaço, onde ainda faltam mãos, que surgem cidadãos dispostos a estender as suas. Pais, familiares, voluntários e pessoas movidas por valores humanitários unem esforços para construir aquilo que muitos julgavam impossível: oportunidades, dignidade e inclusão.
Mas existem instituições que vão além da missão de preencher lacunas. Elas florescem do lugar mais nobre da condição humana: a capacidade de enxergar a dor do outro, acolhê-la como responsabilidade coletiva e transformá-la em esperança concreta. A APAE de Pedreira nasceu exatamente desse sentimento. E, ao completar 53 anos de existência, sua história confirma que algumas obras não são erguidas apenas com tijolos e recursos; são construídas, dia após dia, com generosidade, perseverança e um compromisso inabalável com a vida.
No dia 10 de julho de 2026, a entidade comemora 53 anos de existência. Festeja o Jubileu de Antimônio, símbolo da força resistente, da solidez construída ao longo do tempo e da capacidade de adaptação diante dos desafios. Uma definição que parece ter sido escrita especialmente para a história desta instituição que, há mais de meio século, vem mudando vidas, derrubando barreiras e ensinando que a verdadeira grandeza de uma comunidade se mede pela forma como ela acolhe seus cidadãos mais vulneráveis.
Mas toda grande história tem um começo. E a da APAE de Pedreira tem rosto, nome e sensibilidade feminina. A semente brotou do desabafo de uma mãe. Buscando proteção para seu filho dirigiu-se a instituição da vizinha Amparo, onde foi acolhida. Satisfeita, foi ao encontro de um novo coração, o da professora “Dona Enoe” (Enoe Bueno Gonçalves). Com a delicadeza de quem sabe escutar as entrelinhas da alma, a educadora parou o tempo para acolher aquela história.
A conversa sincera acendeu uma faísca que não pôde ser apagada. Movida por esse chamado, Dona Enoe procurou por Terezinha Morato Lopes, em sua chácara em Pedreira, que era o refúgio de fins de semana e temporadas, pois residia na Capital, onde era voluntária na APAE. E desse diálogo pavimentou-se o solo fértil onde floresceria a solidariedade e a transformação de tantas vidas.
Antes dos prédios, dos equipamentos, dos reconhecimentos e das certificações, existiram três mulheres que ousaram acreditar que a cidade poderia ser mais humana. E visionárias, enxergaram uma realidade que parecia distante, porém, possível de ser concretizada.
A professora Enoe Bueno de Gonçalves, Maria Helena Cáu Palanch e Terezinha Morato Lopes foram às pioneiras que acenderam a chama. Não havia estrutura, recursos abundantes e garantias de sucesso. Apenas uma convicção poderosa: as pessoas com deficiência intelectual e múltipla e suas famílias mereciam respeito, atendimento especializado e oportunidades para desenvolver todo o seu potencial.
Foi assim que tudo começou. Uma conversa. Uma inquietação. Uma necessidade urgente. E três mulheres dispostas a transformar preocupação em trabalho. Elas visitaram famílias, realizaram levantamentos, cadastraram pessoas, buscaram profissionais, reuniram voluntários e mobilizaram a sociedade. Percorreram caminhos desconhecidos quando quase ninguém falava de inclusão, como se fala hoje. Enfrentaram dúvidas, resistências e limitações com a serenidade dos que sabem que estão construindo algo maior do que si mesmos.
É impossível contar a história da APAE de Pedreira sem reverenciar essas três gigantes. Elas não apenas ajudaram a fundar uma Instituição. Plantaram esperança. A partir daquele esforço inicial, a comunidade respondeu ao chamado.
Na histórica noite de 10 de julho de 1973, no Esporte Clube Santa Sofia, a APAE de Pedreira foi oficialmente fundada. E ali começou uma caminhada que atravessaria décadas. Ao lado das idealizadoras, surgiram homens e mulheres que aceitaram a responsabilidade de transformar sonhos em realizações concretas.
A mesa principal foi composta pelo prefeito municipal Sérgio Ferrari Rossi, delegado de Polícia Dr. José Carlos Fazzio e sua esposa Célia, presidente do SOS (Serviço de Obras Sociais) Ana Ferrari Rossi, presidente da APAE de Mogi Mirim Dr. Décio Mariotoni, orientadora pedagógica da APAE de Mogi Mirim Rute Marques, presidente da APAE de Amparo Dr. Jaupery de Moraes Franco, professora Enoe Bueno Gonçalves, professora Terezinha Oazi Alvarenga, presidente da Câmara Municipal, Orlando Sitta e empresário Edgardo Luis Steula.
O primeiro Conselho Deliberativo contava com: presidente – Nelson Castelo, Luiz Broglio Sobrinho, Pedro Baldasso, Dalila Picolomini Pavanello, Amadeu Nery, Mercedes Baldasso, Alfredo Sitta, Terezinha Oazi Alvarenga, Renato Bacci, Leonor Micelli, Eugênio Ganzarolli, Idalina Chianca Flores, Décio Bonimani de Moraes, Inês Rossetti Paulela e Robert Charles Simons
Para a primeira Diretoria Executiva foram eleitos: presidente Edgardo Luis Steula; 1º vice-presidente Dr. Armando Marinelli; 2º vice-presidente Geraldo de Oliveira; 1º Secretário José Braga da Silva; 2º secretário Célio Flores; 1º tesoureiro Aurélio de Souza Pinto; 2º tesoureiro Álvaro Stranieri.
Os escolhidos para integrar o primeiro Conselho Fiscal foram: Ayrton Amaral Gonçalves, Moacir Gasparini e Eccio Graciolla. Coordenadoras: Terezinha Morato Lopes e Maria Helena Cáu Palanch.
Destaque especial ao primeiro presidente, Edgardo Luis Steula, que assumiu a missão de conduzir os passos iniciais da entidade. Ao seu lado estavam diretores, conselheiros, voluntários, profissionais e colaboradores que compreenderam que uma obra dessa natureza não se ergue pelas mãos de uma única pessoa, mas pelo esforço coletivo de uma comunidade inteira.
Foram anos de trabalho intenso. Primeiro, em uma pequena casa cedida por Geraldo Maya, sobrinho do Dr. Sylvio de Aguiar Maya, na Rua Antonio Pedro – altura do número 400 – antiga via que abrigou casas das diferentes Ruas Operárias, que eram destinadas para moradia dos funcionários da Cia Fiação Pedreira. Hoje, a ligação é tomada de estabelecimentos comerciais.
Depois, em outra instalação provisória, na Praça Coronel João Pedro, onde hoje funciona o Museu da Porcelana. Cada mudança representava não apenas uma nova sede, mas um novo degrau de crescimento.
Dez anos após o primeiro sopro de vida, a APAE de Pedreira alcançava a sua maior vitória: a casa própria. O sonho, antes desenhado nas nuvens do impossível, ganhou contornos de realidade pelo suor compartilhado de diretorias, voluntários, parceiros e benfeitores. Na vanguarda deste novo capítulo, uma figura familiar estendeu novamente as mãos. Enoe Bueno Gonçalves assumiu a liderança da comissão que dialogou com os dirigentes da Cerâmica Santana, tecendo os laços para a doação do terreno.
Com sua prontidão eterna, Dona Enoe também atuou plenamente para a obtenção da área que se transformou no alicerce físico de uma obra que já nascera imensa, sustentada desde o primeiro dia por sólidos pilares morais.
A construção da sede própria não foi apenas uma obra de engenharia. Foi a materialização de um ideal. A planta foi doada pelo engenheiro Paulo Antônio Begalli, que anos mais tarde se tornaria Juiz de Direito. O início da construção prova que a persistência vence obstáculos aparentemente intransponíveis, principalmente, quando a cidade se une em torno de uma causa justa, os resultados mostram que é possível alcançar os objetivos e ultrapassar qualquer expectativa.
E a história continuou. Ano após ano, gestão após gestão, a APAE de Pedreira expandiu serviços, qualificou equipes, incorporou tecnologias, ampliou atendimentos e fortaleceu seu compromisso com a educação, a saúde, a assistência social e a defesa dos direitos das pessoas com deficiência intelectual e múltipla.
A caminhada da APAE Pedreira é feita de evolução, cuidado e, acima de tudo, de encontros que celebram a vida. Para arrecadar os fundos que transformam o cotidiano de tantas famílias, a instituição transforma solidariedade em festa. É assim no compasso festivo do Happy Hour, na descontração do Boteco da APAE e na fogueira acesa da sempre atraente Festa Junina. Entre as massas do Jantar Italiano, o brilho nostálgico do Encontro de Fuscas e o tempero único da aguardada Feijoada, a comunidade se reúne não apenas para festejar, mas para semear um amanhã mais justo, inclusivo e cheio de oportunidades. Em alguns eventos há importantes parcerias com outras Instituições que também prestam serviço à comunidade.
Vieram os reconhecimentos, as certificações, os avanços pedagógicos e terapêuticos. O trabalho sério foi consolidado com o respeito da população. Hoje, a APAE de Pedreira é referência. É modelo. É motivo de orgulho para o município.
A certificação ISO 9001, mantida desde 2014, conquistada a partir da gestão de Francisco Geraldo Bertevello e Ancelmo José Cargano, não representa apenas um selo de qualidade. Ela traduz uma cultura institucional baseada na responsabilidade, na transparência e na busca permanente pela excelência.
Mas o maior patrimônio da APAE não está nos certificados pendurados nas paredes. Eles são importantes, sim, pois dão consistência aos serviços. Com a certificação tem-se o mapa para a sequência correta dos trabalhos e a manutenção da qualidade, garantindo que todos os atendidos tenham o mesmo padrão de assistência. Mas, o bem maior está nos sorrisos, nos avanços obtidos por cada aluno e na satisfação das famílias acolhidas. Enfim, na diferença afetiva.
O benefício coletivo vem das ações dos profissionais que diariamente transformam conhecimento em cuidado, na participação dos voluntários que doam tempo, nos parceiros que acreditam nos trabalhos da APAE. Estende-se também na dedicação dos educadores, terapeutas, funcionários e dirigentes, que compreenderam que servir é um verbo que se conjuga todos os dias.
Ao longo de cinquenta e três anos de história, a APAE de Pedreira foi edificada não apenas por paredes e projetos, mas, sobretudo, pela dedicação incansável de homens e mulheres que compreenderam a grandeza da missão de servir. Presidentes, presidenta, vice-presidentes, conselheiros e conselheiras assumiram, em diferentes épocas, o compromisso de manter acesa a chama da inclusão, da dignidade e da esperança. Cada qual, à sua maneira, deixou marcas indeléveis nesta trajetória, somando esforços, enfrentando desafios e transformando obstáculos em oportunidades para que milhares de vidas encontrassem acolhimento, cuidado e possibilidades de desenvolvimento.
Neste ano de 2026, ao registrar a passagem da vigésima quinta diretoria, tendo à frente Ancelmo José Cargano como presidente e na vice-presidência Meire Bonetto Barbin, 1º Secretário Francisco Geraldo Bertevello, 2º Secretário Fernando Martins, 1º Diretor Financeiro Paulo Eduardo Geraldi, 2º Diretor Financeiro Marcelo Chiorato, Diretor de Patrimônio Gevail José de Godoy, Diretor Social João Vitor Bonetto Barbin entre outros importantes integrantes, a APAE de Pedreira reverencia todos aqueles que escreveram e continuam escrevendo esta bela história de amor ao próximo. São protagonistas silenciosos de uma obra grandiosa, que transcende mandatos e gerações.
Com desprendimento, sensibilidade e espírito público, entregaram e entregam o melhor de si para garantir que a excelência nunca se curve às dificuldades e que cada assistido receba não apenas atendimento de qualidade, mas também respeito, afeto e oportunidades para florescer plenamente. A todos eles, o reconhecimento sincero e a gratidão perene de uma instituição que se tornou referência justamente porque nunca caminhou sozinha.
Ao completar 53 anos, a APAE de Pedreira nos convida a uma reflexão. O que seria da cidade sem a coragem daqueles que ousaram começar? O que seria das centenas de famílias atendidas sem a dedicação dos que vieram depois? O que seria do presente sem a generosidade dos pioneiros?
A resposta está diante de nós. Está na instituição sólida, respeitada e admirada que atravessou mais de meio século sem abandonar sua essência. Uma entidade que nasceu da compaixão, cresceu pela união e permanece viva pelo amor. Por isso, este aniversário é mais do que uma celebração.
Ao longo destas mais de cinco décadas de dedicação, a grandeza da APAE de Pedreira jamais esteve restrita às suas instalações ou aos serviços que oferece. Ela se revela, sobretudo, nas pessoas que diariamente fazem da instituição um verdadeiro espaço de acolhimento, desenvolvimento e respeito. Diretores que conduzem a entidade com responsabilidade e visão de futuro; coordenadores que transformam planejamento em resultados; professores que ensinam muito além dos conteúdos; profissionais das áreas da saúde, assistência social, administração, manutenção, transporte e tantas outras funções que, cada qual em sua missão, contribuem para que cada atendimento aconteça com excelência.
Igualmente indispensável é o trabalho daqueles que oferecem seu tempo e seu talento de forma voluntária. São mãos que se unem às dos colaboradores contratados para fortalecer uma corrente de solidariedade que atravessa gerações. Em cada gesto de cuidado, em cada conquista celebrada pelos assistidos e suas famílias, está impressa a dedicação de uma equipe que compreende que inclusão não é apenas um conceito: é uma prática diária, construída com competência, sensibilidade e, acima de tudo, amor ao próximo. É essa soma de esforços que faz da APAE de Pedreira uma instituição respeitada, admirada e essencial para toda a comunidade.
É um aplauso: às idealizadoras que abriram caminhos; aos presidentes, vice-presidentes, diretores, integrantes, conselheiros, conselheiras e suas equipes, que transformaram sonhos em estruturas permanentes. Reconhecimento aos voluntários de ontem e de hoje. Aclamação aos profissionais que fazem a diferença diariamente. Ovação às famílias que nunca desistiram.
E, sobretudo, palmas às pessoas atendidas pela APAE – 93 assistidos em 2026 – verdadeiras protagonistas desta história, que todos os dias nos ensinam sobre superação, dignidade, perseverança e amor à vida. Que os próximos anos sejam tão fecundos quanto os que já se passaram.
E que as futuras gerações saibam que, em 1973, um grupo de pessoas decidiu não aceitar a indiferença. Decidiu agir, incluir, amar. E, graças a essa decisão, Pedreira tornou-se uma cidade melhor.
() – Dados extraídos do Livro “A História da Cidade de Pedreira”, de Edgardo Luis Steula; publicado pela família, após o seu falecimento. Foram 13 anos de pesquisa e elaboração para a conclusão deste trabalho, que contém 12 capítulos. A receita da venda foi destinada a esta importante entidade assistencial que teve o autor como primeiro presidente e que comandou a entidade por três mandatos;

() – Site da APAE, de Pedreira – https://www.apaepedreira.org.br/, com informações disponíveis em 22/06/2026;
() – Informações cedidas pela APAE Pedreira.
*SIDENEI DEFENDI – jornalista profissional, mestre de cerimônias, âncora do TVP Notícias e depois SRTV Notícias (por quase duas décadas), “content creator” e Titular da Cadeira nº 5 (Edgard Roquette-Pinto) da Academia Pedreirense de Letras. Material elaborado em 26 de junho de 2026, às 23h56)


