Ao longo dos séculos, o café não se contentou em ser apenas bebida. Tornou-se personagem. Inspirou economias, moldou paisagens, atravessou plantações, sacas e xícaras, e conquistou definitivamente a literatura, sobretudo quando se fala de aroma e sabor. Poucos elementos têm o poder de mexer tanto com a memória quanto o cheiro de um café recém Na Pedreira de outros tempos – sim das décadas de 1960 e 1970 – esse perfume tinha endereço certo. O cheiro delicioso do café tomava conta da Rua São José, via estratégica de ligação e acesso à Vila São José. Quem cruzava a ponte em direção ao Grupo Escolar Cel. João Pedro, nas décadas de 1960 e 1970, antes de alcançar a Rua Cezira de Queiroz — a antiga Rua da Balsa — era envolvido por uma fragrância impossível de ignorar. Ali estavam a Loja da Toninha, com suas roupas e materiais escolares, ocupando a parte frontal da residência, vizinha à casa de José Benedito Arrelaro. Bem em frente, funcionava a Torrefação de Café Monte Castelo, inicialmente de Abramo Grillo e, anos mais tarde, adquirida por Hamilton Bernardes (pai) e Airton Pintor. Foi um período em que a Rua São José não era apenas um caminho, mas um destino que gerava estímulos, sensações, memórias e emoções profundas. O café, perfumava cada pedacinho desta via, criando uma identidade única. Se tecnicamente as máquinas aromatizavam o ambiente com a precisão da torra e da moagem, para o pedreirense que deixava a Vila São José, a Torrefação Monte Castelo, balsamizava a alma e anunciava que o centro da cidade estava logo ali. Já para os que adentravam a Rua São José, em direção a Vila São José, a Torrefação Monte Castelo era a grande “anfitriã”, dando boas-vindas e transformando a rotina de caminhar em uma experiência sensorial inesquecível. O aroma do café não pedia licença: espalhava-se e permanecia por horas, perfumando praticamente toda a extensão do logradouro, criando uma atmosfera aconchegante. Hoje é uma via essencialmente comercial. Ao lado, durante muito tempo, funcionou uma Cooperativa comandada por Nadinho Chiarini de Ugo, posteriormente adquirida pelos irmãos Hélio e Aldo Vilalva. Na esquina, o tradicional Bar Caçula, resistente ao tempo, ainda em atividade. Próximo à ponte, a Madeireira do Zé Valente completava o cenário urbano.Na década de 1970, no pavimento térreo do prédio de Celso Steula — que já havia abrigado a Coletoria Estadual e os Correios — funcionou a Gráfica de Werbyh Gião. Após um período afastado de Pedreira, ele retornou para instalar a gráfica e lançar os jornais União e Grupo de Letras, ampliando ainda mais a pulsação cultural da região. Quem era apaixonado por café simplesmente não resistia. Entrava, sem cerimônia, para comprar ao menos meio quilo daquele pó precioso. Era um café de aroma intenso. Um café de respeito. O Monte Castelo. Sentir o prazer dessa bebida exige decifrar sensações. A primeira é a olfativa, talvez a mais arrebatadora. Os aromas do café são compostos por substâncias químicas voláteis liberadas após a torra e a extração, captadas pelas membranas nasais. Tão importantes que, sem elas, o sabor seria incompleto. O olfato e o paladar trabalham juntos, o tempo todo, numa parceria silenciosa e essencial. Depois vem a experiência gustativa: o doce, o ácido, o amargo; a adstringência, a maciez, a untuosidade. O café carrega cheiros naturais florais, frutados e herbais, notas que remetem a flores, chás, chocolate, baunilha. Há ainda traços cítricos, maçã, hibisco, damasco, frutas vermelhas. Como tudo acontece ao mesmo tempo, separar essas sensações é tarefa quase impossível. O cheiro do café que pairava no ar e se espalhava por toda a rua era, definitivamente era um dos grandes momentos de prazer dos transeuntes. Para quem sente que o dia só começa depois de um cafezinho, esse aroma continua tendo poder quase mágico — e a ciência confirma. É na torrefação que o café revela sua verdadeira alma. Sem ela, não existiriam o sabor nem o cheiro que aprendemos a amar. Durante todo o ciclo de sua existência, o Café Monte Castelo foi torrado dentro das melhores técnicas da época, buscando sempre oferecer uma bebida saborosa e uma experiência inesquecível. A torra era lenta, respeitosa. Sabia-se que o café estava no ponto exato quando o perfume se espalhava pela redondeza, anunciando — sem palavras — que havia café novo na Monte Castelo. E então acontecia o ritual: não demorava para que muitos pedreirenses corressem até a torrefação para levar para casa o café recém-torrado, ainda quente de aroma e memória. A torra tradicional, a mais conhecida e querida pelos brasileiros, entrega um café encorpado, forte e marcante. Um sabor que não se explica — apenas se experimenta.Curiosidade inevitável: a antiga Rua da Balsa – atual Rua São José – tem a ponte dupla ligando a Vila São José e guardando belas histórias. A ligação da Rua São José à Praça dos Expedicionários chama-se Ponte Ataliba Geraldo, que foi o condutor da balsa, erguida durante a gestão Hygino Amadeu Bellix e denominação dada pela Lei nº 1.403, de 21 de dezembro de 1989, de autoria do vereador Francisco Stranieri. No sentido inverso, da Praça dos Expedicionários para a Rua São José, a ponte recebeu o nome de Ponte Santana, conforme a Lei Municipal nº 188, de 9 de junho de 1956, de Adolpho Lenzi, em homenagem à Cerâmica Santana S.A., que financiou e ofereceu à municipalidade essa obra que uniu o Centro ao Jardim São José, no dia 1º de maio de 1956. De aroma original e penetrante, o café basta por si. Ele infunde jovialidade, ocupa a sala, provoca sorrisos, aquece conversas. Chamado, não sem razão, de néctar dos deuses, o café desperta, reanima e afasta qualquer sombra de tristeza. Contém substâncias estimulantes que despertam o cérebro e a alma. Oferecer um café sempre foi gesto de afabilidade. Desde a segunda metade do século XVIII, quando o hábito se consolidou no Brasil, o cheirinho do café tornou-se despertador, convite, acolhimento. E na Rua São José, por muitos anos, ele foi também memória viva,
-28/02/2026



