*Por Sidenei Defendi – Conteúdo Autoral –
Há uma Pedreira que os livros não registram, uma cidade que respirava afetividade, com risadas e nos espaços que mudaram de nome ou desapareceram na modernidade do centro urbano. O “Beco do Conselho” é um desses lugares fantásticos: real para os olhos de quem viveu os anos 1960, mas completamente esquecido pela história oficial. Foi ali, naquele reduto que hoje habita apenas a memória dos antigos moradores, que nasceu e fincou raízes a histórica Corrida de Barcos que o tempo não apagou. Remexer nesse passado é provar que a identidade de um povo não se escreve apenas com documentos, mas sim, com a força das braçadas que outrora desafiaram o rio e uniram os cidadãos, muito participativos.
Não há nenhum documento oficial que relate sobre o “Beco do Conselho”. Na história urbana e na memória de Pedreira, que se tornou nacionalmente conhecida como a Capital da Porcelana, o termo “Conselho” em vias antigas ou becos pode estar diretamente ligado a duas origens principais: Pedreira foi oficialmente desmembrada de Amparo no final do século XIX (em 1896). Naquela época de transição entre o Império e a República, o órgão que governava a Vila e administrava os bens públicos locais antes de haver uma “Prefeitura” como conhecemos hoje era o Conselho de Intendência Municipal (ou a própria Câmara de Intendentes).
Ruelas e becos situados nos arredores de onde funcionava o Primeiro Conselho de Governo da cidade recebiam esse nome popular dos moradores locais para indicar a direção do Centro Administrativo.
A fundação e emancipação de Pedreira giraram fortemente em torno de grandes proprietários de terras e líderes locais, como o Coronel João Pedro de Godoy Moreira (fundador da cidade). Nos primeiros anos do povoado, decisões políticas, divisões de lotes e a própria criação das primeiras ruas eram debatidas por um Conselho Informal de cidadãos influentes. Locais onde essas lideranças se reuniam ou passagens que davam acesso aos seus casarões costumavam ganhar a alcunha de “do Conselho“.
Como os nomes de becos antigos mudavam frequentemente com a organização e passavam a se chamar “Rua” ou “Travessa” acompanhados de nomes de pessoas, ocorre a microtoponímia urbana popular (nomes informais, espontâneos e não oficiais que os moradores dão a pequenos pontos, ruas, becos, esquinas ou referências geográficas dentro da cidade).
Para conseguir cruzar dados e “enxergar” onde ele ficava, há de se fazer um mapeamento lógico, baseado na forma como o centro histórico de Pedreira se expandiu a partir do final do século XIX.
Ao contrário da toponímia oficial (os nomes de ruas e bairros registrados na Prefeitura), a microtoponímia popular nasce do uso diário, da história oral e da identidade cultural de uma comunidade, sem decretos ou leis. Carrega a memória local, apelidos de moradores antigos, comércios marcantes ou eventos históricos.
Na gramática, na linguística e na semântica, a prática de criar um nome hipotético (ou fictício) para um lugar, pessoa ou objeto em um exercício ou simulação recebe o nome de topônimo fictício ou topônimo hipotético.
Como a menção veio de uma questão de prova envolvendo barcos, existem outras duas justificativas históricas e técnicas para esse nome: Nome Fictício/Simulado, que é uma prática padrão no esporte náutico, para criar nomes hipotéticos (como “Beco do Conselho”) fazendo alusão ao Conselho Municipal ou a antiga Câmara, para testar a capacidade dos candidatos de interpretarem direções usando referências reais (Prefeitura, Rio Jaguari e Clube Náutico).Correspondência Física. Ao exercitar o raciocínio, “Beco do Conselho”, como ponto de partida da prova, seria uma referência à Câmara e à Prefeitura? Talvez!
Mas por que o desejo de saber onde era o Beco do Conselho? Durante a pesquisa, encontrei um texto de uma revista de aniversário, em que a Cidade, ainda com o Rio Jaguari pujante, realizou uma “Corrida de Barcos”. Algo inimaginável na atualidade, pela baixa vazão. E essa corrida era em direção oposta à da correnteza. Saiu do “tal de Beco do Conselho” em direção ao Clube Náutico. CONVENHAMOS, UM ACHADO ESPETACULAR E HISTÓRICO. Seria um exemplo perfeito de como a microtoponímia popular resgata memórias que o tempo e as mudanças geográficas tentam apagar? Continuemos com a investigação…
E não era uma descida fácil, a favor da maré. Os competidores remavam na direção oposta, contra a força da correnteza do Jaguari, em uma prova de pura resistência física e paixão. O destino final? O imponente Clube Náutico Joaquim Carlos, onde os aplausos aguardavam os heróis do rio, de acordo com o relato do articulista Werbyh Gião, que elaborou a matéria para a primeira edição, em novembro de 1961, para a Revista Pedreira (que nasceu em 25 de outubro de 1961), a qual foi o chamariz para o lançamento do jornal “O Pedreira”, mais tarde adquirido pelo Dr. Fausto Pocai e que circulou até 23 de dezembro de 1989.
A publicação rememorou as festividades de 65 anos da Flor de Porcelana (na época com acento circunflexo), trazendo a inauguração do tão sonhado Hospital, do novo prédio do Cinema entre outros atrativos, como a “Corrida de Barco”, que cativou um grande número de participantes. Cada embarcação era obrigatoriamente conduzida por uma dupla.
O colunista revelou ainda que os dias que antecederam a prova foram de muitos comentários e expectativas. No dia, era visível o nervosismo entre os participantes, e a saída foi desesperadora, com os varejões batendo um contra o outro, parecendo uma congada fluvial. O cronista, na verdade, descreveu de forma viva o movimento e o choque dessas varas (remos) entre as embarcações ao longo do percurso.
A disputa foi forte e a dupla vencedora conseguiu se desvencilhar do pelotão maior e abriu uma larga vantagem sobre os demais competidores. A embarcação vencedora tinha como timoneiro e remador, que se revezavam durante a competição, Alfredo Daldosso e Talvino Camilotti. Em segundo lugar chegou a dupla Paulo Gouveia e Pedro Gouveia. Na terceira posição, João Daldosso e Olival Colzatto; em 4º lugar, Dirceu e Lalo; na quinta colocação, Valeriano e Dearley. Em sexto lugar, Sulino e Álvaro, e na 7ª posição, Pedro e José Graciola.
Mas, afinal, onde ficava o “Beco do Conselho”? Bem, analisando atentamente e tentando desvendar o mapa do provável traçado da Corrida de Barcos — como os participantes subiram o rio em direção oposta à correnteza, ou seja, contra o fluxo que vai em direção à Vila São José —, o “Beco do Conselho” ficava “rio abaixo“, e possivelmente nas proximidades do Centro Velho Histórico de Pedreira.
Fazendo a engenharia reversa do percurso dos barcos, imaginava-se que o “Beco do Conselho” era, supostamente, em uma das ruelas que davam acesso direto à margem do rio, no trecho entre a Praça Cel. João Pedro, a travessa para se chegar ao Paço Municipal, o Beco da São Sebastião ou outra ruela nas imediações.
Levando em consideração que a Câmara Municipal funcionou onde era a Cadeia Velha e, metros à frente, havia uma viela de acesso à margem direita do Rio Jaguari, e que a Intendência ficava onde hoje é a Prefeitura, do lado esquerdo da margem do fluxo do Jaguari, além do Beco da São Sebastião, pouco mais de 100 metros acima, também com entrada pela Rua XV, lado direito da borda do Jaguari, na imaginação ficou como prováveis pontos da largada um destes locais mencionados.
Porém, como na pracinha em frente à Prefeitura havia, na época, uma estupenda escadaria de acesso ao Rio Jaguari, deixou a sensação de que esse poderia ter sido o ponto de partida.
O ex-prefeito, ex-vice-prefeito, ex-vereador, que também presidiu a Câmara, o empresário Eugênio Ganzarolli, lembra da prova, porém disse que nunca tinha ouvido falar do “Beco do Conselho” e que poderia ter sido um referencial náutico dado pelos organizadores da prova. Conjecturou que a largada poderia ter sido do Beco da São Sebastião, por haver ali um represamento implementado na década de 1940, o que facilitaria a partida dos participantes.
O ex-vereador e que esteve na presidência da Câmara por diversas vezes, Francisco Stranieri, guarda viva na memória aquela disputa. Ele acompanhou tudo de perto, da ponte da São João, a poucos metros de sua casa. Na lembrança, ressurge a imagem dos competidores em suas canoas desafiando a forte correnteza. Com um varejão de cada lado, os concorrentes impulsionavam as embarcações com força e precisão, subindo o rio em um verdadeiro teste de resistência.
Mas, depois de tantas suposições e análises frias, eis que o professor Luís Francisco Novo, em uma conversa descontraída com o Lalo Arcanjo (o Geraldo Faccini Avi), descobriu que o famoso “Beco do Conselho” se localizava num imenso corredor da residência do Senhor Domingos Marchi, pai do empresário José Marchi, na Rua XV de Novembro. Esta passagem ia direto ao Rio Jaguari e foi deste ponto, aos fundos da casa, que partiu a Corrida de Barcos.
Essa engenharia reversa nos levava a pontos prováveis, mas não a uma certeza de pedra e cal. Dividido entre o espaço espremido do Beco da São Sebastião, a grandiosidade da escadaria da Prefeitura ou outro trecho do Rio Jaguari, o “Beco do Conselho” parecia recusar-se a ter o seu local identificado. Agora, com a revelação do imenso corredor da residência do Senhor Domingos Marchi, o mistério ganha um endereço, mas não perde o seu encanto. Ele continua a convidar quem passa por ali a olhar o rio e escolher a sua própria margem de partida. Além disso, uma dúvida ainda paira no ar: Por quê “Beco do Conselho?” Afinal, a história de uma cidade não se faz apenas com mapas exatos, mas com as lacunas que a gente teima em preencher com afeto e mistério.
Por Sidenei Defendi – jornalista profissional, mestre de cerimônias, âncora do TVP Notícias e depois SRTV Notícias (por quase duas décadas), “content creator” e Titular da Cadeira nº 5 (Edgard Roquette-Pinto) da Academia Pedreirense de Letras. Este conteúdo é autoral. Escrito em 10 de setembro de 2026, às 21h12)



