*Por Sidenei Defendi
Na primeira aula de datilografia no ano de 1966, ensinava-se a postura corporal correta (costas totalmente eretas e apoiadas no encosto da cadeira e braços e cotovelos colados ao corpo), dedos curvados sobre o teclado (como se estivesse segurando uma bola de tênis), batendo nas teclas com as pontas dos dedos e não com as gemas. Além disso, a professora dona Ida Corsi, irmã do Monsenhor Nilo Romano Corsi, explicava sobre o mecanismo básico e a memorização da fileira central do teclado.
Com a sequência das aulas, aprendíamos a inserir o papel perfeitamente alinhado no rolo, a definir as margens esquerda e direita, o uso correto do polegar direito, exclusivamente para a barra de espaço, e como puxar a alavanca do carro para pular de linha ao ouvir o famoso aviso sonoro ("trim!").
Passados 60 anos, quando falo aos jovens que hoje trabalham comigo no Diário Oficial que sou diplomado em datilografia, o olhar que recebo de volta é de puro estranhamento. Uma mistura de fascínio arqueológico com incredulidade. Espantados e com um sorriso bem maroto, perguntam como se eu estivesse descrevendo um treinamento para acender fogueiras com gravetos. Curso de digitação? É uma reação compreensível. Afinal, eles vivem no reino do Ctrl+Z, onde qualquer deslize ortográfico é pulverizado por um toque sutil no Backspace ou corrigido pela inteligência artificial antes mesmo de o dedo deixar a tela.
Para os jovens, o teclado do computador com suas teclas macias, retroiluminadas e silenciosas é apenas uma extensão natural das mãos, algo que aprenderam a usar antes mesmo de juntar as primeiras sílabas. Para eles, digitar é como respirar: automático, invisível, sem esforço.
Eles não sabem o que era o peso de um erro. Minha jornada começou no metal pesado de uma máquina mecânica. Não havia leveza ali; era preciso ter postura, firmeza e uma precisão cirúrgica. Na sala de aula, o ambiente era dominado por uma sinfonia caótica de batidas secas e o badalar metálico que avisava o fim da linha. O mantra inicial, que ecoa na minha mente até hoje como uma oração sagrada, pela repetição exaustiva, ditava o ritmo: asdfg espaço, hjklç espaço. Depois, subíamos um nível: qwert espaço, yuiop espaço. E, finalmente, a base protetora: zxcvb espaço, nm,.; espaço.
Cada dedo tinha um endereço fixo. Os polegares, guardiões exclusivos da barra de espaço. Os olhos? Sempre fixos no texto ao lado, nunca no teclado. Olhar para as mãos era o pecado capital da datilografia.
Com o tempo, ganhei o direito de operar as modernas máquinas elétricas no escritório. Parecia que estávamos tocando um piano de cauda. O toque era mais suave, o retorno mais rápido, mas a responsabilidade continuava a mesma. Errar um relatório ou uma carta comercial significava o drama do corretor líquido, a rasura maldita que nenhum chefe rigoroso aceitava, ou, pior, arrancar a folha com frustração, ajustar novo papel e recomeçar do zero.
Naquela época, a velocidade não era um detalhe: era um divisor de águas no mercado de trabalho. Os anúncios de emprego nos jornais deixavam claro: "Contrata-se para escritório com ótima datilografia". As empresas promoviam testes com cronômetro na mesa. Como? Sim, tinha um aparelho de alta precisão que registrava o tempo que demorava para preencher a lauda entregue para o teste. Quem alcançava a marca dos 150 toques por minuto já era respeitado. Quanto mais toques, no tempo estipulado, mas próximo ficava da contratação. Os que atingiam 195 caracteres eram considerados os reis do teclado.
Hoje, ver um jovem digitar com apenas dois polegares na tela de um celular, em uma velocidade espantosa, me faz perceber como o mundo girou rápido. Para eles, a datilografia é uma peça de museu, algo totalmente "fora da casinha".
Sorrio e não discuto. Eles têm a tecnologia, mas a minha geração tinha o ritmo, a música das teclas e a precisão de quem sabia que cada letra importava. No fim das contas, a modernidade pode ter facilitado a escrita, mas a alma do texto ainda depende da mesma velocidade que move o mundo: a do nosso pensamento.
Sidenei Defendi – jornalista profissional, mestre de cerimônias, âncora do TVP Notícias e depois SRTV Notícias (por quase duas décadas), “content creator” e Titular da Cadeira nº 5 (Edgard Roquette-Pinto) da Academia Pedreirense de Letras. Este conteúdo é autoral.


