Tudo começou em abril de 2003. Na verdade, meses antes, pois o novo desafio exigia ensaios e mais ensaios… Por intermédio da Companhia Teatral “Bote a Boca”, de Pedreira, dirigida pelo ator Cláudio Federicce (Cláudio Aparecido Pereira), o “Fred”, fui contratado pela Prefeitura de Pedreira para ser o protagonista da Paixão de Cristo.
Eu já tinha, é bem verdade, alguma experiência como ator. Já havia protagonizado, na década de 1990, a comédia “Quem casa quer casa”, de Martins Pena. Além disso, minhas incontáveis “performances” como poeta, declamando aqui e ali (mais ali que aqui!), me fizeram ter certa intimidade com os palcos da vida. Até o magnífico “O Navio Negreiro”, de Castro Alves, eu interpretei em muitas ocasiões, assim como o antológico “Dia das Mães”, do poeta Giuseppe Ghiaroni, entre outros tantos poemas. Foi assim que, pelas mãos da Poesia, eu cheguei ao Teatro. “Fred” (Cláudio Federicce), ator e diretor teatral já experimentado no ofício, foi me apresentando ao pessoal. Foi assim que conheci Claudinho Cassiani, então diretor de Cultura de Pedreira, Greg Sabino, Bruno Perego, Eric F Souza, Elton Paulo de Souza, Paulo Bueno, Luis Antonio (Luisinho), José da Luz, Rafael Figueredo, Evandro Ferrarezzo, Milton Cesar Pettean (Ton Pettean), Luis Ricardo Lonel, Alexandre Gressoni, Antonio Carlos Honorio (Honorinho), Wagner Gottardo, Eunice de Oliveira, o saudoso Waldir Berloffa, João Paulo Nascimento e tantos outros talentosos rapazes e moças. Um maravilhoso elenco! A primeira coisa que fiz foi “emplacar” um texto de Giuseppe Ghiaroni para interpretarmos. Na verdade, tive o cuidado de transcrever, fala por fala, a novela radiofônica “Vida de Cristo”, de autoria de Ghiaroni, adaptando-a para nossa interpretação, com autorização do próprio autor, que eu conhecera pessoalmente em 1995 (o fabuloso poeta Ghiaroni viria a falecer no Rio de Janeiro/RJ, na véspera de completar 89 anos, no dia 21 de fevereiro de 2008). A experiência foi mágica, singular e altamente edificante para mim. Tanto é que aceitei repeti-la nos dois anos seguintes – abril de 2004 e março de 2005, sempre dirigido pelo “Fred”. Muito haveria para ser contado, evidentemente. Mas alguns momentos foram realmente marcantes… Certa vez, um dos ensaios havia se estendido além do previsto e, por conta disso, não havia mais ônibus para eu retornar a Amparo, nem quem pudesse me trazer de carro à minha cidade. O jeito foi pernoitar em Pedreira. “Fred” me levou até a sede da Cia. Bote a Boca, onde, entre cortinas e apetrechos teatrais, encontrei um vistoso caixão. Não tive dúvida: havia achado a “cama” ideal para improvisar o necessário descanso. E foi o que fiz. No primeiro ano, 2003, quando a “Paixão de Cristo” foi encenada em frente ao Estádio Municipal Wanderlei José Vicentini, na cena em que Jesus entra triunfalmente em Jerusalém, lá estou, caracterizado, montado no tal burrico. Quando vou descer do dito cujo, não é que o bichinho pisa no meu dedão? Pois vi estrelas! No ano seguinte, 2004, agora no Centro de Eventos “Monsenhor Nilo Romano Corsi” (ao lado do fórum local), o impasse ocorreu na hora da ressurreição de Jesus. Tenho, desde sempre, tontura até para trocar lâmpada. E não é que decidiram, sem minha “divina” anuência, que o Cristo ressuscitado teria que aparecer no alto de uma estrutura de cimento, no topo de um prédio? Pois então… lá fui eu! Com uma corda amarrada em volta de minha cintura, sob a túnica (corda que era segurada por um integrante da Defesa Civil), eis que surge Jesus, ou melhor, eu… e totalmente cegado pelas luzes dos refletores, sem nada enxergar da imensa multidão que a tudo assistia. Momentos tensos, sem dúvida, mas inesquecíveis! Ainda no mesmo ano, na última apresentação, num condomínio particular (Jardim Náutico Represa), acrescentaram uma cena: quando os soldados romanos retiravam o corpo inerte de Cristo da cruz, depositavam-no sobre uma padiola e desfilavam com o Cristo morto, a coroa ensanguentada sobre o peito inerte de Jesus morto, uma belíssima cena que realmente comoveu a multidão. Foi, efetivamente, uma cena tocante! Contudo, enquanto ajeitavam a tal padiola, deixaram-me “mortinho da Silva” num barranco qualquer… Para meu azar, havia bem naquele local um formigueiro. Eu imóvel (afinal, estava “morto”), quase devorado por um exército de formigas lava-pés, câmeras filmando, gente vendo e fotografando. Nada podia dar errado e, principalmente, Jesus não poderia ressuscitar antes da hora, ainda mais se contorcendo de dor sobre um formigueiro. Ou seria o fim da picada, literalmente! Totalmente inadmissível! Resisti bravamente às dores e continuei “morto”, como convinha a um bom intérprete do Cristo crucificado. Impagável! Encerrado o espetáculo, quase que tiveram de me levar para o hospital, tão inchado eu fiquei! O prêmio foi que, durante o desfile com o corpo de Jesus, caiu uma chuva fina reconfortante, compondo o cenário ideal. A natureza, chorando, parecia recompensar meu hercúleo esforço. E, de fato, recompensou. Já em abril de 2005, o último ano em que interpretei Jesus na Paixão de Cristo de Pedreira, a peça ganhou dimensões similares às de Piracicaba: encenamo-la dentro do Estádio Municipal. Muitos foram os momentos marcantes: o Sermão da Montanha – o momento em que, mais próximo da arquibancada, eu parecia dialogar com a plateia, reproduzindo as imortais palavras do doce Rabi da Galileia. Outro momento que impressionava era a cena em que o demônio tentava Jesus no deserto. A gargalhada do “demônio” (interpretado pelo ator Greg Sabino, de Campinas) era de arrepiar, assim como de arrepiar foi quando o mesmo ator, em 2003, interpretou João Batista. Mas a cena que, à luz da minha sensibilidade, arrebatava a multidão foi quando Jesus entrava no Rio Jordão para ser batizado: eu (o Jesus de então), com uma pomba branca oculta sob a manga da túnica, entrava e, ao ser “batizado”, deixava voar, de costas para o público, a tal pomba. Era uma cena indescritível: a pomba branca (simbolizando o Espírito Santo) rasgando, com o ruflar de suas asas, o tapume da noite, acordando e assustando as estrelas. O povo se levantava e aplaudia, em delírio! Ah, quantos momentos, quantas belezas e quanta emoção haveria por resgatar. Mas encerro aqui, temendo me alongar. Quis apenas escrever este relato, desejoso de reparti-lo com meus leitores. Saudade! Muita saudade!



