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As transformações contabilizadas na jornada de Jonas LúcioAlém dos números: o tecelão da palavra que a contabilidade escondia

Jonas Lúcio entrou jovem no quadro de funcionários da Prefeitura de Pedreira. Embora tenha convivido por mais tempo na Administração Municipal, o contato efetivo se deu a partir de 1993, quando ele atuava no Departamento de Contabilidade, à época capitaneado por Maria Inês Marcon. No setor, também trabalhavam Giovanna Tiozo, Marilene Bozzer e Vanderli Toniatto.

Naquele período, como Chefe de Gabinete do prefeito Hamilton Bernardes Junior, eu frequentemente solicitava informações ao Departamento. E lá estava Jonas: presente, preciso, atuante, como, aliás, também o eram seus colegas de sala. Mas havia nele algo que os números não registravam: uma espécie de silêncio atento, como quem escuta mais do que planilhas permitem dizer.

Anos depois, o acaso ou a geografia da vida, nos colocou no mesmo bairro: Jardim Alzira. Algumas vezes, fui de carona até minha casa, na Rua Dirceu Rodrigues Borges. Jonas seguia um pouco mais abaixo: descia aquela rua generosa em declive e, à esquerda, tomava a Rua José Manoel de Freitas. Pequenos trajetos, conversas breves, mas, como sempre acontece, a vida ia sendo tecida ali, fio a fio, sem alarde.

Mais tarde, assumiu o desafio de atuar como secretário municipal em Cosmópolis, onde conheceu sua esposa. Retornou a Pedreira e percorreu outros setores da Municipalidade, entre eles a Controladoria Geral, ao lado de Andreia Policarpo, reencontrando também Vanderli Toniatto.

Experimentou funções diversas. Viveu emoções múltiplas. Mas o filho de Benedicto Lúcio e de Dona Genny Pantaleão Lúcio — irmão de José Wlademir Lúcio e Janes de Fátima Lúcio – hoje companheiro de Margareth Kreitlow, decidiu, ao final de 2025, revelar uma face que talvez sempre estivesse ali, apenas à espera de tempo e coragem: a de escritor.

Após cursar Filosofia e Psicologia, publicou, pela Editora Viseu, seu primeiro livro: “Histórias e Estórias de um Cidadão Comum – A vida requer coragem”. E, como quem não pede licença ao tempo, em fevereiro passado já entregava aos leitores sua segunda obra, também pela mesma editora.

Confesso: foi surpresa. Não pela capacidade — essa, agora se vê, sempre existiu — mas pela intensidade. Jonas soube combinar o rigor intelectual com uma sensibilidade rara. Trabalha a linguagem como quem tece: entrelaça palavras com paciência e propósito, criando não apenas textos, mas tecidos de memória e sentimento.

Valoriza relações, observa detalhes que a pressa cotidiana costuma esmagar. Filósofo por formação, psicólogo por inclinação, ele não apenas executa tarefas, compreende pessoas. Sua trajetória é marcada por destemor e por uma habilidade incomum de transformar o cotidiano em matéria viva, pulsante, digna de ser narrada.

Mas autenticidade cobra preço. E Jonas sabe disso. Não raramente, sua escrita, direta, sensível e verdadeira, encontra resistência naqueles que ainda acreditam que talento precisa de permissão. Não precisa. Nunca careceu. Há quem diga que o tempo da alma é lento, como o crescimento de uma jabuticabeira no quintal. Mas há corações que desafiam esse compasso. Jonas Lúcio é um deles.

Mal o sol se pôs sobre o alcance de seu primeiro livro, “Histórias e Estórias de um Cidadão Comum”, e ele já nos brindava com o amanhecer de “Contos de Um Lugarejo: O Lugar Onde Eu Moro é Lindo”. Dois livros em pouco mais de seis meses não são apenas produção literária, são urgência de existir em palavras.

Neste novo “lugarejo”, sua escrita se despe de formalidades para vestir a simplicidade essencial. Fala aos pequenos — e aos adultos que ainda preservam a infância — com a honestidade de quem observa o mundo por uma fresta de eternidade. Personagens como Seu Joaquim e Dona Claudete não são apenas figuras: são espelhos do que ainda resiste em nós.

Ali, a coragem não está nos grandes feitos, mas nos detalhes: na viola que ecoa saudade, na flor que insiste em nascer entre as pedras. É um convite ao desacelerar, quase um manifesto silencioso contra a pressa vazia que nos consome.

Jonas compreende que o público infanto juvenil precisa, mais do que nunca, de raízes. E sua escrita oferece isso: pertencimento. Um sussurro firme que diz: “Onde você mora é lindo. E viver, apesar de tudo, ainda vale a pena.”Que sua pressa em publicar não seja vista como atropelo, mas como fôlego. Porque há silêncios que precisam ser rompidos e Jonas escolheu fazê-lo com palavras.

Mas seria injusto falar dessa leveza sem reconhecer a têmpera que a sustenta. Por trás do “lugarejo” iluminado, há o peso de um passado que não se apaga. Seu primeiro livro carrega a marca profunda daquele 1º de fevereiro de 1983, data que não é apenas memória, mas cicatriz. Ao narrar a perda de seus pais, em Pedreira, município paulista conhecido pela louça e porcelana de suas indústrias, Jonas não entregou ao leitor apenas dor: ofereceu um testemunho cru de resiliência. Ali, no território da ausência, ele encontrou o alicerce da própria escrita.

Se hoje celebra a beleza do lugar onde vive, é porque conhece — como poucos — o esforço de reconstruir o mundo sobre os escombros. Sua literatura não é fuga; é enfrentamento. Não é ornamento; é sobrevivência transformada em linguagem. E talvez seja isso que mais incomode alguns: Jonas não escreve para impressionar. Escreve porque precisa. E quem escreve por necessidade não pede licença, deixa marcas.

Celebrar Jonas Lúcio, hoje, é reconhecer mais do que um autor em ascensão. É reverenciar a audácia de um filho que, diante da terra que tudo levou, decidiu plantar palavras. E elas floresceram.

Porque, no fim, entre números e narrativas, ele escolheu aquilo que nenhum balanço contábil é capaz de medir: a permanência do afeto. E essa, convenhamos, é a única herança que o tempo não consegue soterrar.

*Sidenei Defendi é jornalista profissional, mestre de cerimônias, “content creator” e Titular da Cadeira nº 5 (Edgard Roquette Pinto) da Academia Pedreirense de Letras. O presente conteúdo é autoral e foi elaborado em 30 de março de 2026.

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Sidney Defendi

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