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Pelé, desde o princípio de sua carreira foi figura de destaque. E quando chegava, o mundo diminuía o passo. Nas décadas de 1960 e 1970, suas visitas às cidades do Brasil e do exterior, algumas delas inesperadas — fosse com o Santos FC, fosse com a Seleção Brasileira — não eram simples compromissos esportivos. Mas, sim, acontecimentos. O tempo parecia suspenso diante da presença de Pelé, o homem que se fez presente em 72 países, carimbou 17 passaportes e transformou o futebol em idioma universal.
Consta que o Rei esteve em Pedreira em duas ocasiões. Uma documentada, fotografada, guardada na memória visual da cidade. A outra, não. Sustentada apenas na palavra e às vezes é assim que as histórias mais verdadeiras sobrevivem.
Corria o ano de 1966. A Seleção Brasileira treinava em Serra Negra, preparando-se para a Copa do Mundo da Inglaterra. No retorno a São Paulo, ao passar por Pedreira, Pelé sentiu um mal súbito. Nada dramático, mas suficiente para que o médico da delegação pedisse a parada imediata do ônibus na próxima farmácia.
Naquele tempo, a cidade se costurava por avenidas e ruas que hoje carregam muitas memórias: Papa João XXIII, Antônio Pedro, XV de Novembro, a Praça Cel. João Pedro (ainda cortada pelos trilhos da Mogiana), Primo Frazatto, Santo Massucatto formavam o caminho obrigatório rumo à estrada velha, que levava a Campinas ou Mogi-Mirim.
O ônibus estacionou pouco antes da Rua Siqueira Campos. Pelé desceu, amparado pelo lendário massagista Mário Américo, a pedido do médico da Seleção, Hilton Gosling. O destino foi a Farmácia Santana, então pertencente a Décimo Cavicchia, mas conduzida naquele instante por Jesus Comparim, o Zuza, personagem conhecido e respeitado, desses que a história grande costuma escolher para os momentos decisivos.
Foi Zuza quem aplicou a injeção. Seringa de vidro. Mãos firmes. Silêncio respeitoso.
Nenhuma fotografia. Nenhum alarde. Apenas o Rei, humano, vulnerável por um instante, sendo cuidado como qualquer outro cliente/paciente.
Nesta época, não era hábito ficar tirando foto como nos dias atuais pela facilidade disponibilizada pelos celulares. Antigamente, a fotografia era um evento. Como o processo envolvia filme e revelação, cada clique tinha um custo real e físico. Enquanto hoje temos um “excesso” de imagens, as barreiras financeiras e técnicas daqueles bicudos anos de 1960 fizeram com que incontáveis momentos ficassem sem qualquer registro visual.
Minutos depois, restabelecido, Pelé voltou ao ônibus. A delegação seguiu viagem. O mundo retomou sua pressa. E o Brasil, bicampeão, partiria dias depois para uma Copa amarga: vitória sobre a Bulgária, com gols de falta de Pelé e Garrincha, e derrotas duras para Hungria e Portugal. Voltou para casa ainda na primeira fase. Uma Copa para esquecer.
Jesus Comparin, o Zuza, para que os mais jovens tenham uma referência sobre sua personalidade, conhecia os segredos das poções medicinais, mas foi nas notas musicais que encontrou o remédio para a alma. Zuza, o mestre do tempo, transformou o silêncio dos laboratórios no eco vibrante dos bailes de outrora. Tendo outro grande músico na condução do Conjunto, Luís Francisco Novo, percorreu estradas, costurando memórias em formaturas e festejos, com uma das bandas mais tradicionais do Circuito da Águas e da Grande Campinas – Os Cartolas – até que decidiu eternizar o belo. Das notas musicais, migrou para o brilho do ouro líquido, tintas e vernizes cerâmicos as quais queimavam em até 780ºC, fundindo-se às peças e aos traços do decalque, película fina com desenhos impressos, utilizada para transferir imagens, dando personalidade a pratos, xícaras, vasos, tigelas etc., sem precisar desenhar à mão livre. Aplicado com água, ele era fixado na peça, seco e depois queimado em mufla, para aderir permanentemente. Enfim, vestia a louça e a porcelana com elegância.
O tempo avançou. No dia 19 de fevereiro de 2011, um sábado ao cair da tarde, Pelé voltou a Pedreira. Agora distante dos gramados vinha como visitante, turista, comprador comum. Rubinho de Souza já fechava sua loja, na entrada do antigo Complexo da Indústria Nadir Figueiredo, na SP-95, quando um carro parou em frente. O pedido do motorista foi simples: “Será que dá para atender?” A resposta quase foi não, até que veio a frase decisiva: “Se você vir quem é, tenho a mais absoluta certeza de que vai atender com alegria”.
E atendeu. Não havia como negar o acesso ao interior da loja. O coração acelerou, o sorriso se abriu. O ambiente ficou em alto astral. Afinal, diante de Rubinho estava o Rei do Futebol. O ídolo máximo.Compra feita, cliente satisfeito. Houve abraço, emoção contida, autógrafo, fotografia e essa expressão visual está devidamente emoldurada e exposta em local de destaque, nobre, visível e centralizada, com o objetivo de eternizar esse momento especial vivido ao lado de Pelé, porque Rubinho o admirava desde menino, pois é torcedor confesso do Santos. É uma imagem real, que não envelhece, não perde a qualidade, é imortal.
Pelé conheceu o mundo como poucos. Em 1969, junto com os demais companheiros do Santos F.C, em Pointe-Noire, na República do Congo, foram capazes de silenciar uma guerra civil. A partida foi considerada como “o jogo do século”, transformando a data em feriado nacional. Na Nigéria, provocaram uma trégua de 48 horas em meio a outro conflito. Em Boston, em 1985, precisou deixar o estádio no intervalo, diante do tumulto. Em Três Corações, sua cidade natal, arrastou uma multidão, ao visitar a réplica de sua casa de infância.
Em Pedreira, não. Aqui, o Rei foi recebido com tranquilidade, sem cercas, sem gritos. Foi acolhido no singular, no gesto pequeno, no atendimento discreto. Duas vezes. Como se a Cidade tivesse entendido, antes de todas as outras, que até os mitos precisam, às vezes, apenas de uma farmácia aberta ou de alguém disposto a atender, apesar do horário de expediente ter se expirado. E talvez seja por isso que essa história, mesmo sem foto, nunca deixou de existir.
Não importava o local ou o país. Pelé chegava a emocionar-se com tantas demonstrações de carinho. Jamais deixou de acenar para seus entusiasmados admiradores e nenhuma vez sequer recusou-se a conceder um autógrafo, como a Rubinho Souza, durante a compra que fez em 2011.
*Sidenei Defendi é jornalista profissional, mestre de cerimônias, “content creator” e Titular da Cadeira nº 5 (Edgard Roquette-Pinto) da Academia Pedreirense de Letras.



