Será que há algum descaso maior que o verificado em Pedreira e que se alastra por mais de sete décadas? Por que será que o Estado não atende a esta solicitação, que foi pautada pela primeira vez nos anos de 1950? Esse cenário, com respostas desfavoráveis vem barrando a realização deste projeto desde 13 de julho de 1955, quando em uma reunião em Amparo foi acolhido com discursos inflamados, aplausos e apertos de mão e ganhava nome e sobrenome: a pavimentação da Via Carlos Gomes, entre Pedreira – Campinas. Jânio da Silva Quadros, então governador, selava ali o que parecia ser o fim da poeira e o início da modernidade para Pedreira. Contudo, o relógio da verdade travou, ali mesmo, uma quarta-feira. Sessenta anos e 7 meses se transcorreram e a obra, outrora garantida sob o calor das promessas políticas, permanece apenas como um fantasma no cronograma da Cidade. Não há planos, não há máquinas, não há asfalto. Resta apenas o eco de uma reunião que o tempo insistiu em apagar, mas que a memória coletiva teima em preservar. O Jornal A Tribuna, em sua edição de 17 de julho de 1955, imortalizou na página 8, o júbilo de uma população que acreditou no amanhã. Abaixo, está a reprodução, com a grafia da época e o peso da história, do registro de uma conquista que, ironicamente, nunca se concretizou: PARABÉNS, PEDREIRA! “Entre os assuntos de interesse desta Região, discutidos na reunião dos Prefeitos, em Amparo, na quarta-feira última (13 de julho), presidida pelo Exmo Governador Jânio Quadros, destaca-se o plano de asfaltamento de estradas de rodagem, cujo traçado não incluía a nossa cidade, porque a rota-Jundiai-Itatiba-Amparo-Serra Negra etc. encurtariam as distâncias daquelas cidades a São Paulo, daí o interesse e até pressão daquele trajeto; entretanto a interferência decidida do Sr. Humberto Piva, com o valioso apôio do Dr. João Caetano Alves, digníssimo Secretário da Viação, acompanhado do nosso veriador Renato Bacci, conseguiu-se a aprovação do govêrno para que o asfaltamento faça ligação com nossa cidade- Via Carlos Gomes. Uma vitória para o povo de Pedreira, esse grande benefício conseguido pelo nosso prefeito Humberto Piva.” O otimismo foi máximo. O entusiasmo por uma nova estrada asfaltada e, além disso, encurtando a distância com Campinas, também foi enorme. O diálogo positivo, em uma reunião realizada no dia 13 de julho de 1955, em Amparo, com Jânio da Silva Quadros, que tomara posse, como governador do Estado, em 31 de janeiro de 1955, jamais se efetivou, ou seja, o planejado, prometido, esperado e sonhado asfalto nunca se tornou realidade. A promessa foi um projeto, que não teve continuidade e muito menos projeção para o futuro. Foi uma hipótese delirante, momentânea, pelo menos, no que tange a Via Carlos Gomes, pois a outra rota, Jundiaí-Itatiba-Amparo-Serra Negra, teve os trabalhos desenvolvidos e é uma importante ligação dos municípios do Circuito das Águas com a Capital. Talvez, o compromisso tenha se dado naquela reunião, com o cunho exclusivo de dar visibilidade ao recém-empossado governo. O trecho do território pedreirense está pavimentado e se deu graças ao trabalho da Administração Municipal. Essa história, que começou há quase 71 anos, após forte pressão do prefeito Humberto Piva, teve muitos outros capítulos posteriores. Vira e mexe o tema volta à tona. Pedidos são formulados e protocolizados, porém, a ligação continua sendo de terra batida. Segundo consta, para o Governo Estadual esta ligação faz anos que está asfaltada. Só se a pavimentação foi feita de forma invisível. Como bem diz o “Coscuvilheiro” — aquele confidente das sombras que transita ao lado de “Sabe Tudo” e o “Língua Solta” — a obra foi um prodígio da engenharia fantástica: “Os ‘homis’ vieram, mediram, betumaram. Fizeram o estrondo das máquinas e a pompa da festa, mas tudo de forma microscópica, em uma dimensão que os olhos humanos não alcançam.” Se realmente a estrada está pavimentada para o Estado, deve ser um atalho supremo, ou seja, uma trilha imperceptível que conduz o usuário do nada a lugar nenhum, pavimentada apenas pela ironia de quem, no além, executou um projeto impalpável. Sidenei Defendi é Membro Efetivo da Academia Pedreirense de Letras – Ocupando a cadeira 5 – Patrono Edgard Roquete-Pinto -Médico legista, professor, escritor, antropólogo, etnólogo, ensaísta e pai da radiodifusão brasileira


